<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329</id><updated>2012-02-15T22:39:40.787-08:00</updated><title type='text'>Há Fogo na Pradaria</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>33</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-808798037847581556</id><published>2012-01-04T14:26:00.000-08:00</published><updated>2012-01-04T14:29:09.899-08:00</updated><title type='text'>Riso</title><content type='html'>E mesmo quando de rir formos ainda capazes, haveremos de recordar o riso enorme, absoluto, perdido. O riso com aves altíssimas para as quais – a julgar pela precisão de seu voo - o tempo correria mais devagar, com dias de Maio soalheiros e de anoitecer gelado, com nus pés sobre um canavial, com noites num deserto onde o tecto bem se define e nos ilumina, com raparigas rio adentro e seus vestidos a abrirem majestosa cauda em redor, com rapazes de punhos erguidos como botões de flor que vão desabrochar em mansos flancos, com a saca da onda, faminta de terra. Um riso enorme, comprido, como um manto. Perdido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando perante o sermos ainda capazes de rir dissermos que melhor seria não rir. Melhor seria não mesmo ser capaz de rir ainda. Melhor seria parar de vez o carrossel cujo frenesi desencadeado pelo crescente andamento provoca em nós este estranho riso. Um riso vindo do próprio fundo da matéria, do princípio, um riso impregnado em todas as coisas que hoje aqui se movem. &lt;br /&gt;Um riso como uma coroa de espinhos colocada em volta da cabeça de todos para que a sua presença seja assinalada. Rimos portanto. E rimos muito alto, para que quem passe pense que não é a sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um que ri mais alto que todos os outros. É o que segue montado sobre um sino e cujo balanço do corpo faz soar o tonitruoso badalo. É esse quem mais alto ri, porque a esse cantam-lhe logo junto ao ouvido. Nada mais será ele capaz de ouvir e todos os outros desenham seu andamento pelo compasso por si marcado. E mais grave do que ensurdecer com os risos, é ensurdecer mesmo antes de os outros começarem sequer a rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fora sorriem e acenam, dando graças a Deus por embater em duas almofadas aquele badalo e de soar seja jamais capaz. Começarão depois a deixar de olhar e o carrossel assemelhar-se-á a um lazareto que tanta pena provoca. Uma grande pena e sobretudo pena por belíssimas serem as figuras. Cavalos de porte senhorial da madeira paridos. Belíssimos cavalos da madeira paridos. E uma tropa surda sobre eles montada, uma tropa a rir de cabeças inclinadas para trás, tal como uma criança quando a puxamos para o colo. Uma grande pena e sobretudo pena porque tantas histórias para contar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nós pena do temerário riso perdido, onde ríamos sem notar mesmo o carrossel que nos puxava, onde também havia um sino mas não se notava o compasso. Era só canção.&lt;br /&gt;Este é um riso indolente à canção, porque inundado de medo, um riso histérico próprio da queda que jamais conhece o chão. Na gradação decrescente dos sons, rimos unicamente do compasso perpetuamente marcado e da excitação do movimento, o resto não vemos tampouco ouvimos.&lt;br /&gt;Mas rimos. Rimos muito, apesar das gentes dos cavalos de madeira paridos do lazareto da canção do sino do colo da pena da sobretudo pena. Rimos, e apesar do riso, rimos muito&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-808798037847581556?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/808798037847581556'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/808798037847581556'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2012/01/riso.html' title='Riso'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-5653429394154567861</id><published>2011-12-23T06:52:00.000-08:00</published><updated>2011-12-23T07:13:28.485-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No dia 24 de Dezembro de 1978, Maria Teresa Henriques escreveu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«O importante é ter uma fileira de soldados de guarda toda a noite. Garantir que as paredes permanecem intocadas, incólumes, ao barulho. E aos outros dai-lhes, Senhor, dias de Sol para dançarem nos seus frenéticos ditos, estrebucharem nas suas verdades quotidianas, parirem deuses consoante a cavidade entre uma nuvem e sua vizinha. Fazei passar Senhor, por favor fazei passar, anjos alucinatórios que cantem em tonalidades de silêncio capazes de produzir neles infinitos pergaminhos adereçados ao Sublime.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas zelai por favor pelos meus soldados, pelos meus soldadinhos, que cada um conte histórias de sua terra, e que as conte em tom muito elevado, até que mais nada possa eu ouvir. Dai-lhes arpões Senhor, aos meus rudes soldados, para que bem defendam minha porta. Ensinai-lhes canções de seus antepassados, que repugnam estas gentes. Dai-lhes as armas que necessitem para as vigílias da cerrada e surda fortaleza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o importante é ter soldados, porque importante é não ter medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Importante é abrir as portas para o quintal às gentes e deixá-las palrar sem misericórdia, mas não aos meus ouvidos, Senhor. Deixai-me com os meus rudes soldadinhos. E dai-me o calor nas mãos de alguns tachos ao lume e outras duas enormes mãos a escorregarem pelas ancas. Um queixo que se apoia num ombro e um cheiro muito apurado a um fim de tarde de Inverno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que me deixem quieta e vão praticar suas artes para o país que faz fronteira com o meu torso, com o país que fica a quatro palmos do meu torso. Que longe entoem seus bandolins. Longe&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o importante é ter soldados, porque importante é não ter medo.&lt;br /&gt;E dizer que se música houver, será para eles. E se de soar forem ainda capazes os sinos, que o façam no embalo da lenta marcha do corpo presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Explicai depois aos meus soldados que com o corpo deverão desenhar abóbadas encadeadas até se erguer uma costeira catedral que habitarei. Que ao anoitecer deverão com suas tochas formar um candelabro central que produza no chão uma outra de mim, de contorno bem desenhado e por dentro bem pintada de preto, para as horas que acolherão a solidão. Que quando eu sair deverão preparar, como pontes, oito trapézios que não me deixem cair ao mar, mas tão somente a ele me lancem como luz de um farol que resvala sem nada tocar, para recolher de seguida. Que com os seus cachimbos deverão produzir uma névoa que me resguarde dos ferozes olhos do céu. Que não deverão interromper por um instante que seja as histórias que me contam, para que só ao longe oiça os meus mortos e longe permaneçam as investidas dos vivos. Lembrai-lhes sobretudo que o jogo deverá ser jogado e lembrai-lhes igualmente que não deverei sentir medo. Os meus rudes soldados. E aos outros dizei que, chegados ao fim, estes serão os heróis.»&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-5653429394154567861?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/5653429394154567861'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/5653429394154567861'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2011/12/no-dia-24-de-dezembro-de-1978-maria.html' title=''/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-5296923929542481689</id><published>2011-11-30T06:14:00.000-08:00</published><updated>2011-11-30T12:57:31.295-08:00</updated><title type='text'>Vinho</title><content type='html'>Qualquer coisa como o vinho, mas permanente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que se tome em cadentes porções e abra na pele fendas invisíveis onde penetrem bichos vindos do húmus dos dias, que rodopiarão pela nevralgia carmesim do interior dos corpos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como dedos feéricos por entre uma garganta, treinados para fazer sereias a partir de harpas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A exorcização dos corpos, dizer que há contínuas inflamações de navios em alto mar e um discurso abracadabrante de crianças que não nascerão em virgens ventres.&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Um vinho que nos cerre os olhos e nos faça prometer à amada uma casa iluminada a pirilampos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algo que coloque todas as ruas numa roleta que parará para nos indicar o caminho, onde os dados terão sido sempre bem lançados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que peça &lt;span style="font-style:italic;"&gt;mais&lt;/span&gt; na clarividência sem esforço do copo vazio ao soar na mesa de madeira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como um vinho, que convoque os nossos monstros para que lhes acariciemos a crina e lhes estudemos as listas, para que saibamos que claridade ganha a luz reflectida nos seus enormes dentes. Que sobre eles nos leve a galopar pelos campos que amanhecem despovoados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um néctar encantatório que faça dos fios de cabelos compridas linhas de pesca capazes de resgatar Eurídice dos confins das leis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um néctar demoníaco que arraste riso e choro para a mesma janela e nela nos debruce do ventre para cima, para choque de todos os transeuntes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algo como vinte dedos feitos de pequeníssimas aranhas geladas que provoquem arrepios na nuca que jaz, e uma náusea de marinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como um escafandro, que nos defenda de todo o Azul, na resvaladura da intimidade  do mergulho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um vinho que nos segure como um abraço maternal que aumenta a distância ao mundo, atrasando a queda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qualquer coisa como o vinho, mas permanente&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-5296923929542481689?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/5296923929542481689'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/5296923929542481689'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2011/11/vinho.html' title='Vinho'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-3806995899834225565</id><published>2011-10-12T09:13:00.000-07:00</published><updated>2011-10-12T16:32:07.713-07:00</updated><title type='text'>Elegia</title><content type='html'>Ora-se e ergue-se a voz como quem pela chuva clama em horas de seca&lt;br /&gt;Senhoreiam-se as fendas da desértica boca&lt;br /&gt;pelo sopro descarnado que é das entranhas da terra arrancado&lt;br /&gt;numa sanguechuva que corre por entre as ancestrais raízes&lt;br /&gt;E como cântico se vem cravar ao ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Orai campos, orai rios, comigo orai&lt;br /&gt;E vós, abri vossas bocas para deixar passar o descarnado sopro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois digo-te com verdade que&lt;br /&gt;trezentas criaturas se precipitam sobre árvores altíssimas&lt;br /&gt;E num desgarrado uivo te saúdam em uníssono.&lt;br /&gt;As mais belas mulheres e homens que das mãos dos gigantes mandei libertar&lt;br /&gt;Gigantes, curvados, que fazem as montanhas&lt;br /&gt;Montanhas, que se erguem por fim para impedir a entrada da luz na terra por sete dias.&lt;br /&gt;Sete dias da desditosa paz do sacrário que se fez dos campos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digo-te que ao primeiro raiar do oitavo dia&lt;br /&gt;avistei um ténue menino que a toda a linha corria,&lt;br /&gt;Afogueado, para lá das horas, para lá dos dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que no esplendor do amanhecer&lt;br /&gt;Nuvens de borboletas vieram vangloriar sua derradeira metamorfose&lt;br /&gt;E cobriram as folhas, as águas, as casas e os corpos tão completamente&lt;br /&gt;Que tudo o que existe respirou como única criatura&lt;br /&gt;Pelo manso movimento de suas inúmeras asas.&lt;br /&gt;Como no primeiro sono que logo segue o pranto da criança que nasce.&lt;br /&gt;Pela primeira vez irrompeu a onda pela areia&lt;br /&gt;sem que fosse permitido distinguir uma da outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digo-te que ao fim do oitavo dia,&lt;br /&gt;Um barco sozinho avançou pelas deslustradas águas e&lt;br /&gt;Lançando sua âncora e erguendo sua bandeira aos ventos,&lt;br /&gt;Declarou que a partir dessa hora&lt;br /&gt;o movimento se faria apenas no firmamento último&lt;br /&gt;onde assentam os mares.&lt;br /&gt;Que ele restaria imóvel até ao fim dos tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Orai, orai&lt;br /&gt;E que inchem os mares e transbordem os rios,&lt;br /&gt;Que enverdeçam os campos e gigante se torne a voz do pássaro&lt;br /&gt;Que o febeu alvor paternal nos venha inflamar as faces&lt;br /&gt;Nesse fogo diário que um dia será o último.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que se ergam os caídos,&lt;br /&gt;Nobremente à espera da ceifa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhai agora os gigantes que se voltam a curvar&lt;br /&gt;Para que sobre eles peregrinem esses ciganos&lt;br /&gt;de cujo canto nos vem a toada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvis a surda oração?&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Tu és o pão, a água, a luz&lt;br /&gt;Eterna fonte&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-3806995899834225565?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/3806995899834225565'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/3806995899834225565'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2011/10/elegia.html' title='Elegia'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-4099602826340949863</id><published>2011-09-13T07:06:00.000-07:00</published><updated>2011-09-13T07:11:06.429-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Terão de lhes arrancar dormências do corpo a ferros&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E a foice terão de lhes extirpar as paisagens cosidas aos olhos, com a mesma naturalidade com que se fecham os olhos a um morto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Terão de suportar a arcaria dos corpos bravios em monólogos espasmológicos&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Assistirão então como quem de mãos atadas sofre de sarna a arcaboiços prenhes de glória &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Abrirão gargantas para calar a canção, cantar-se-á então com os olhos, &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Arrancarão olhos e a canção semear-se-á pelo sangue que escorre das mulheres e as pancadas dos homens no chão&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Amanhã longos campos brotarão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Atearão um fogo demorado aos navios e dir-se-á por entre o fumo que a neblina é o suar da terra&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Imolarão os cavalos e dir-se-á a nobreza com que estes lançaram o peito à chama&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Racharão as cabeças das velhas da província, dir-se-á que só morreram uma hora depois, que eram enxertadas em corno de cabra&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Arrancarão os homens de dentro das mulheres, dir-se-á que os sarcófagos de parir haveriam.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Amanhã longos campos brotarão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Interromperão os primeiros amores e o choro enraivecido dos rapazes embebedará as raízes vasculares das árvores enormes que pautarão o seu canto no vento de norte&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Doerão num só corpo as dores do abate de um exército inteiro e as dores das orações de quem por ele chorará. Doerão as casas, doerão as vozes, doerá a terra ou não doerá nada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Degolarão o arlequim, porque ele sabe cair de rabo no chão e eles não. Pim pim, fará a cabeça do arlequim à hora do fim, do riso a cara adornada, porque pelos senhores já haveria a moeda de ter sido lançada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Amanhã longos campos brotarão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Perseguirão trinta homens e mulheres que na madrugada correndo descem o vale em direcção ao rio,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Onde se banharão nus, celebrando o demorado parto da criança da casa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tentarão tudo incendiar. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A alvorada fará o auto dos fuzileiros da resistência. À hora em que, mais uma vez, tudo romperá na desenvoltura própria do tempo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Amanhã longos campos brotarão&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-4099602826340949863?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/4099602826340949863'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/4099602826340949863'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2011/09/terao-de-lhes-arrancar-dormencias-do.html' title=''/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-7156085225567441750</id><published>2011-08-23T07:10:00.000-07:00</published><updated>2011-08-23T07:11:59.498-07:00</updated><title type='text'>IV</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cantemos, cantemos&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Canções de ressurreição,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Embalando do sono à vida, esse sono pelo qual aqueles que ali se estendem dão graças. Aqueles, em camas de cabeceira alta de ébano talhado cujo relevo, a certas horas, se assemelha a doze lobos guardando um santuário esquecido pelos céus. Aqueles que nos prometeram que voltariam vivos da guerra.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cantemos, cantemos&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Canções de artesão,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;À hora que preludia a fundição da carne, em que sobre a calçada se lança a água que depois é varrida, à hora em que uma ave voa alta a grasnar a aridez das terras onde caminharam por tantas tardes para vestir de vento frio o peito e observar as fendas que como um fogo lento rompem por entre a pele das mãos, onde rogaram que o frio fosse suficiente para fender toda a malha viva até ao matrimónio das suas carnes. Até aqui, onde se sentam lado a lado partilhando o pão, com a mesma profecia terrível pregada ao pescoço, perante o ofício da vida, perante as mãos antigas do Tempo que trazem à luz aquilo que será a mais bela estirpe, porque o não será que nela mesma. E a sua inocência estribará todos os joelhos ao chão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cantemos, cantemos&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Canções da velha armada,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Que se vê passar das janelas que dão para o mar, como a luz de um farol que se arrasta tal bicho velho e vagaroso pelos anos e pára defronte de todos esses quartos costeiros. A armada que só se vê uma vez, com todos os navios povoados e atracados no mar que nos vêm incitar à guerra. A armada que só se volta a ver nos olhos seráficos desses corpos alvos e virginais de onde provem toda a força dos dias presentes. A armada cuja partida nos arrasta ao estaleiro. A armada que é enviada para justificar a extensão monstruosa do mar. A armada, a armada, a armada. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cantemos então, cantemos&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Canções de se cantar tudo isto&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Canções de marinheiros obstinados,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Que o mar nada quer connosco, e tudo envia para terra. Que jamais suportaremos o negro do fundo do mar e que à derradeira hora conheceremos sempre o corpo outra vez beijado pela luz.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ilustríssimo, marinheiro cavaleiroso, terra sois. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-7156085225567441750?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/7156085225567441750'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/7156085225567441750'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2011/08/iv.html' title='IV'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-8715217432710451364</id><published>2011-08-04T06:04:00.001-07:00</published><updated>2011-08-04T06:05:44.917-07:00</updated><title type='text'>III</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Olho para o meu irmão e sei dizer como ele é astuto e compacto, como baloiça três vezes o cigarro na mão direita e depois aclara a voz numa tosse arrogante para proferir qualquer coisa que fará o outro remexer as ancas na cadeira. Sei dizer como a minha irmã Luísa se passeia pela casa como um pássaro a arrastar a asa, a rodopiar no seu titubear quotidiano, a correr pelos campos só para ser vista neles, a esticar a cara esparramada ao sol de fim de tarde à espera de qualquer bênção para ela capital como uma leve rajada de vento lhe venha acariciar o pescoço, levantando-lhe o longo cabelo meio louro. Nunca baloiço o cigarro três vezes na mão, porque esse é o meu irmão. Nunca estico a cara ao sol de fim de tarde, porque essa é a Luisinha. E assim se arruma a casa, pondo as coisas à distância percebendo o que elas são. Achando que se percebe o que elas são. Como um talha-mar a abafar a força da corrente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um talha-mar como se não houvesse problema algum em termos chegado irremediavelmente tarde, em termos chegado à hora da falência. Tarde para ver a minha mãe uma bela rapariga, antes de lhe ver as mãos enroladas na borda da toalha de jantar, «com os junquilhos que aqui havia». Tarde para saber do canto dos pássaros. Tarde, tarde, e já palavras para chamar tudo pelo nome. Tarde para me consultarem acerca das horas e de repente já todos os relógios certos, tudo imperativamente levado à frente por essa tropa que corre atrás de sei lá o quê, sabe lá a mãe o quê, de passo marcado e já tudo mapeado, correndo em círculo pelos anos. Ah, problema algum nesses cavalos que marcham pelos dias levando tudo à frente. Sobre o rosto e as costas da minha mãe, sobre a sua voz rouca a mandar-me ir ao sr. Américo. Minha senhora, a tropa que não passou pelo sr. Américo todo arqueado a estender-me o saco de maçãs: «Ora tenha a bondade». A mim, que nunca me conheceu bondade alguma. A sua mulher sempre sentada lá atrás, de ar velhaco, ele sempre escasso de carnes, como um tronco delgado que agora se inclina, o estômago a roncar ao longo dos anos, «Tenho rouxinóis no estômago, ó rapaz».&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A Zé, que a tropa arrastou. A Zé que se ria com o corpo todo e quando corria fazia a trança alternar entre um lado e outro da sua cara. Que assobiou sempre a cantiga da aldeia e que de meio sorriso posto na cara me dizia que besta que eu era. A Zé cujo assobio baixinho eu nunca consegui discernir da voz rouca da aldeia no meu ouvido.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Resumindo, a Luisinha tão esperta, que se é para ter cabelos ela tem os mais bonitos, se isto continua ela tem filhos e se alguém adoece é ela que trata. O meu irmão que anda pela vida como quem pergunta «Quantos são?». A Luisinha a passear-se pelas horas com os cavalos amestrados a seu lado, acariciando-lhes a crina, obrigando-os a caminhar no seu passo. O meu irmão chicoteando-os, sempre mais depressa, sempre mais depressa e ele a correr.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E eu como um rabichador, puxando a besta pela cauda, fazendo com ela um círculo indistinguível entre aquele que é arrastado e aquele que puxa, eu com o roçar da cara na fronte da besta, envolvido e movido pelo vento que se cria no puxar da cauda, em bicadas muito pequenas no chão, a levantar poeiras, sempre em círculo. Eu, que não me agarro a mais do que uma besta de uma vez, e nela me aninho com força, para lhe sentir o respirar encostando a cara ao seu pescoço, para lhe sentir as veias e adentro o sangue que ferve. Eu, sempre trôpego, com o clamor da voz rouca da aldeia no ouvido, eu que nunca marchei por mais nada. Sempre entrevado, de unhas cravadas no dorso do animal, a perguntar pela Zé, se ainda tem seis sardas numa bochecha e oito noutra – no Inverno, no Verão perco-lhes a conta. Eu agarrado ao animal pelas ternas colinas, os dois velhos, muito devagarinho, agora que o sol começa a descer e os caminhos de cabra se fazem mancha. Agora que os pastos são negros e que, mais à frente, as espigas que a minha mãe arrancava para nos mostrar o despir das camisas são corredores com cabeças minúsculas a darem de si. As ternas colinas por onde corri de peito cheio como um marinheiro no meio do mar, pelas horas de nevoeiro que a proa vai desvirginando até à manhã, como cartograficamente. Percebe? Como uma agulha a entrar em linho branco, a bordar um desenho pequeno no canto. Como fazer uma cama, sacudir os lençóis, verificar se eles caem em cumprimento igual para um lado e para o outro, tirar as nesgas que enxotamos cama fora, dobrar o cabeçalho do lençol sobre a coberta. Percebe? De peito cheio, como um rapaz de onze anos a vencer uma corrida sentindo a respiração dos outros nas costas. Já está, percebe? Está feito, está ali. E que lhe caiam todos em cima logo depois. Está feito. Se descansarmos, é ali que descansamos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Agora, de quando em vez, não propriamente saudades, que nas saudades está a casa arrumada, mas ganas. Umas ganas infinitas de correr para ali, de ter o peito cheio e desalmadamente abrir a boca, que a falar não se sente a goela. Umas ganas de se ser compacto, de ter tudo junto, antes desse terrível milagre de ver tudo esticado, de ter a ponta da manga da camisola do passado Inverno pelo antebraço.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A voz rouca da aldeia. Umas ganas de pôr tudo às costas, o meu irmão e o seu cigarro que se baloiça três vezes, a tonta da Luisinha, o sr. Américo a esticar-me as maçãs, a Zé com as suas sardas, a minha mãe de olhos cravados em mim. Tudo às costas, está a ver? Um marinheiro no meio do mar, com tudo às costas. Até que se soltem os freios à besta para que ela corra em debandada.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-8715217432710451364?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8715217432710451364'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8715217432710451364'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2011/08/iii.html' title='III'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-9020353477494217386</id><published>2011-07-01T10:20:00.001-07:00</published><updated>2011-07-01T10:20:24.004-07:00</updated><title type='text'>II</title><content type='html'>Se barco ao mar, barco ao fundo. Sempre que barco ao fundo, o velho algoz, baixo, com uma verruga a cada quarto de hora da cara, na mão o archote, atrás dele por entre os navios naufragados, a expedição mutilada, dir-se-ia que chicoteada num truque malabar cujo flagelo que obriga ao caminho se sente por detrás, sendo na verdade exercido na frente pelo archote que conduz. Ouvem-se as vozes de cada um:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isto fica. Isto não fica. Isto fica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Esse agreste fundo das horas passadas, com o calor que cede o archote do velhaco algoz, leve calor na cara a cada paragem junto de um casco, sob a condição do negrume mudo do fundo do mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Por entre os escombros o maestro maldito a obrigar a tocar, obrigando a que desses escombros alumiados se façam marionetas soar, que delas se faça ainda canção. Puxa-se as cordas ao instrumento que se viu tombar, os nós dos dedos em soluços convulsos a qualquer velocidade que torne muda a impossibilidade de convalescença, de retorno, mudo o facto de não existir nada capaz de soar ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Afinal não mais o levantar de um corpo na respiração de outro, pois dir-se-ia isso mesmo, que um corpo era erguido à vida no jazer da cabeça sobre o profundo respirar do adormecido peito que a sustentava. Capazes de soar eram as cordas puxadas no subir e no descer desse peito-mastro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! mas brava é a terra. &lt;br /&gt;Brava, brava é a terra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Caminha-se pela escadaria e de repente a necessidade de um corrimão que ora toma lugar ao nosso lado, permitindo caminhar com a fronte apontada ao caminho, ora sobre os degraus, obrigando ao peito aberto e olhos no alto, ora em baixo, e então corre-se como correm os ratos, rasteiros, olhos pregados no chão metodicamente presentes ao tempo do caminho. Corrimão que se passeia pelas estações espraiando-se a cada ameaça de queda. Roga-se-lhe como se se pudesse rogar a outra coisa que não àquele que traz a besta em braços, morta e por isso entranhada já na terra, e por isso presente a cada degrau. Como se cada coisa que brota, por mais cruel, não fosse já o mais extenso dos salmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brava é a terra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvir o roçar do ar em cada coisa, poder ouvir todo o coro em uníssono. Cada coisa como parte do carrilhão que desenha a forma de tudo o que há, soando ao mais brando dos ventos. Como a vénia da erva alta ou como os lençóis brancos de uma rua traseira num meio dia ventoso. Que tudo seja manifesto como cada pássaro ao soar de um tiro. Que esse âmago de que brotam todos os salmos se roce em cada parte do carrilhão. Que tudo seja, por uma vez, manifesto. Manifesto como um homem pelos anos, na sua maior velocidade, até à imobilidade de um qualquer sentido que se deixa ouvir na voz de um coro trauteando em desgraçado júbilo a entrada em terra do mar. Porque&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brava é a terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bravo o verde dos olhos dele e bravos os oitenta e quatro anos daquela mulher calada cuja pele se assemelha a casco fendido pelo que de escabroso há no descer do rio da sua terra, de onde não se vê o mar. E um permanente «Aguenta-te», e punhos cerrados, e o esperar que cada convulsão passe como passa cada tremor proveniente do interior da terra. O resistir ao som da engrenagem que se ouve e que impede de correr nessa mesma engrenagem, no momento em que todas as coisas, ainda ocupando o seu posto, se destacam no relevo de um leve levantar, mostrando-se como colocadas ali. Mostrando-se como casa inexoravelmente arrumada. Como todos os objectos de uma sala erguidos às quatro horas de uma madrugada, como se por detrás de um palhaço branco se vislumbrasse o rosto de um velho homem, cuja máscara não é arrancada mas levemente desprendida da carne. Até à consciência de cada pedaço da espinha através da qual nos movemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que não me esqueça, por favor, há hora em que esse verde desaparecer, que brava será a terra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bravo será ouvir a brutalidade da canção, para depois como um astro inflamar e desaparecer na mais fugaz das quedas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-9020353477494217386?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/9020353477494217386'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/9020353477494217386'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2011/07/ii.html' title='II'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-725686298862962262</id><published>2011-04-10T07:57:00.000-07:00</published><updated>2011-04-10T09:39:20.857-07:00</updated><title type='text'>I</title><content type='html'>E barco ao mar,&lt;br /&gt;Que o sideral dorso começa a surgir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E barco ao mar,&lt;br /&gt;Urdindo a tinta de todos os rasgões&lt;br /&gt;Como chagas aracnídeas que se espraiam pelos dias.&lt;br /&gt;Como o russo, cantar o canto do galo&lt;br /&gt;Cantando as cordas da lira, da lida.&lt;br /&gt;E a dignidade do silêncio do nó.&lt;br /&gt;Êmbolos convalescentes em fogos coordenados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nervo da testa do maestro,&lt;br /&gt;Herói mutilado a quem restam dois braços,&lt;br /&gt;Todos os outros lançados ao mar.&lt;br /&gt;Ali escorregar os dedos &lt;br /&gt;E todo o espasmo é canção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Inferno o rosto de Ulisses por detrás da chama.&lt;br /&gt;Rosto que não volta.&lt;br /&gt;Último naufrágio perante a montanha,&lt;br /&gt;A que nos coloca as duas mãos na nuca e obriga ao fundo.&lt;br /&gt;A chama que não é rosto e &lt;br /&gt;Todo o rosto é chama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mocidade feita êmbolos de pernas entrelaçadas,&lt;br /&gt;O naufrágio perante a montanha&lt;br /&gt;A imolar terra.&lt;br /&gt;E à sétima hora a sua decantação &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta terra, de onde parte a coluna vertebral,&lt;br /&gt;Das trinta árvores do teu pescoço&lt;br /&gt;Dos teus pés férteis de miosótis,&lt;br /&gt;Das trinta árvores que queimam nas tripas do tempo.&lt;br /&gt;E a tua cabeça coroada pelo milagre da cinza que ainda arde&lt;br /&gt;A inexorabilidade cansada onde nalgumas noites se incendeiam catedrais &lt;br /&gt;Catedrais, corpos lázaros de pedra.&lt;br /&gt;Húmidos, esqueletos, empedernidos, inflamados.&lt;br /&gt;Queimando as teias e o nó &lt;br /&gt;No uivo em surdina da sepultura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como quem beija o nervo da testa do maestro,&lt;br /&gt;Beijar-te as rugas ou o que ainda há de Azul&lt;br /&gt;Casco de navio mutilado,&lt;br /&gt;Esculpido pelas correntes do embater da cauda no mar.&lt;br /&gt;E a terra inteira a passear-se,&lt;br /&gt;O baile das Idades no teu rosto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E barco ao mar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como marcação permanente do tempo,&lt;br /&gt;A decantação da terra&lt;br /&gt;O puro compasso adormecido num regaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E elas abençoam os dias.&lt;br /&gt;De todas as vezes que o monstro abre a boca,&lt;br /&gt;Centenas delas na dança convulsa&lt;br /&gt;Batendo os pés no chão –&lt;br /&gt;No firmamento, fingir um firmamento –&lt;br /&gt;Para ensurdecer o grito. E no dilatado peito, embalar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As mães. Beatíficas culpadas do abafar do primeiro pranto&lt;br /&gt;A santa culpa da muralha erguida de peitos senhores de um canto surdo&lt;br /&gt;Contra a garganta escancarada do mais belo dos monstros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre o torso da besta rogando ao expelir de todo o profeta.&lt;br /&gt;Olhar de frente e ser engolido&lt;br /&gt;No entoar do frusto fardo da lucidez&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O canto solitário do monstro apenas na prima hora&lt;br /&gt;E desde aí, &lt;br /&gt;O desgraçado grito das ilustres gargantas &lt;br /&gt;Os dedos sedentos no nervo da testa do maestro&lt;br /&gt;- É assim. Não é assim&lt;br /&gt;Naves afogadas &lt;br /&gt;E sobre as proas em queda o afinado canto dessas parideiras na exortação&lt;br /&gt;Às almas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Incendiar cada rosto&lt;br /&gt;Enquanto os olhos de quem vê escorrem sarcomas como que derretidos pelo fogo&lt;br /&gt;E as falsas catedrais erguidas num exercício de amor&lt;br /&gt;E não volta&lt;br /&gt;Mãe, não volta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O erguer do gigante corpo no grito dos hérois sacrificados&lt;br /&gt;Com a exortação baixinha daquelas que poisam no torso&lt;br /&gt;E relembram a fome da besta,&lt;br /&gt;Lançando barcos ao mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E barco ao mar,&lt;br /&gt;E barco ao mar,&lt;br /&gt;Boca adentro.&lt;br /&gt;Que todo o mar não é senão um istmo do corpo da besta.&lt;br /&gt;E não há senão mar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-725686298862962262?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/725686298862962262'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/725686298862962262'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2011/04/e-barco-ao-mar-que-o-sideral-dorso.html' title='I'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-2127476348828940691</id><published>2011-01-11T13:20:00.000-08:00</published><updated>2011-01-11T14:20:13.830-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Criar asas para depois as arrancar e com elas cavar a terra,&lt;br /&gt;Até chegar ao coração da Terra, ao qual tu,&lt;br /&gt;Senhor,&lt;br /&gt;dormes abraçado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A obra recusa-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canta-se para voltar ao nascimento eterno,&lt;br /&gt;E ajudar a Terra no parto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor,&lt;br /&gt;Há guerras a travar com essas cidades,&lt;br /&gt;Cidades de ménades que dedilham harpas&lt;br /&gt;para embalar hecatombes.&lt;br /&gt;E o que dedilham são horas em jardins incendiados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há cidades de túmulos para destruir&lt;br /&gt;E bailes de mortos para assistir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor,&lt;br /&gt;A partir de hoje,&lt;br /&gt;a ascensão da Virgem faz-se para baixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor,&lt;br /&gt;Todos os dias o meu rio atravessa a rua Saint-Dominique,&lt;br /&gt;onde jamais alguém viu passar um rio&lt;br /&gt;E onde todas as terças-feiras os mesmos vinte bêbados morrem afogados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor, &lt;br /&gt;sinto amor por crianças mudas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor, &lt;br /&gt;Cura-nos ou cura-os,&lt;br /&gt;As obras pias são escritas a estrume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lúcifer.&lt;br /&gt;Senhor,&lt;br /&gt;&lt;em&gt;heosphoros&lt;/em&gt;, da Luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor,&lt;br /&gt;Lembra-lhe a alegoria e diz-lhe&lt;br /&gt;Que também eu rasgaria com o bico o meu peito,&lt;br /&gt;O meu peito, Senhor,&lt;br /&gt;E que do meu sangue o alimentaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que me fiz inerte nas caças,&lt;br /&gt;E tenho medo que ele morra de fome.&lt;br /&gt;Que me fiz inerte nas caças,&lt;br /&gt;E ando com essa tribo que, no caminho,&lt;br /&gt;Trauteia baixo a canção.&lt;br /&gt;E que para voltar a casa a canta ao contrário.&lt;br /&gt;Cada um porta dez flechas nas costas.&lt;br /&gt;E a cada flecha lançada, oiço holocaustos de aves ancestrais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor,&lt;br /&gt;a Beleza, &lt;br /&gt;besta coberta de chagas, &lt;br /&gt;a dos olhos húmidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que as flechas voltem para trás,&lt;br /&gt;E de fendas lhes cubram a boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor,&lt;br /&gt;Cantam com a espuma ensanguentada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor, &lt;br /&gt;Cantamos com a espuma ensanguentada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-2127476348828940691?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/2127476348828940691'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/2127476348828940691'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2011/01/criar-asas-para-depois-as-arrancar-e.html' title=''/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-2914085656351913527</id><published>2011-01-02T10:10:00.000-08:00</published><updated>2012-02-09T07:18:35.424-08:00</updated><title type='text'>D. Graça</title><content type='html'>&lt;div&gt;- E sempre foi para fora estudar? Oh Graça, era esperto o rapaz, não era?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Capitão desses parideiros de auroras. Para vencer a esfinge fundou cidades e esculpiu-se esfinge. Aquele que teceu cidades a cabelos grisalhos. Aquele que esgaravatava inocências. Aquele que engravidou a Musa e partiu para o exílio. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Por debaixo dos olhos de D. Graça há linhas onde quatro corvos vieram oferecer o canto de pescoço torcido.&lt;br /&gt;A Gracinha tem quatro corvos de cantar derradeiro nos olhos.&lt;br /&gt;- Oh Gracinha, sua balofa, então tem corvos que lhe vêm morrer aos olhos?&lt;br /&gt;- Gracinha coma a sopa, coma a sopa que há quatro passarinhos no fundo do prato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Graça, há massacres em massa. Há máquinas de tortura que têm a beleza como mecanismo. E morre-se de cantar a canção. Meu amor, morre-se. E é à tua mão que me entrego, é a tua missa que celebro. Do bicho ao astro, batalhões impiedosos de arcanjos nus de punhais na boca, dilacerando, do bicho ao astro. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Trincheiras são abóbadas sem tecto com dez arcanjos pendurados, cujo rasgar das faces oferece a substância de que brotam os campos de magnólias. Campos de estátuas erguidas de um genocídio. Porque choramos a alta beleza em tumbas do tamanho de uma mão; ainda há milagres. Porque transporto uma tumba em cada seio e te moldo a boca a eles, para que os chores também; ainda há milagres. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Tu que constróis cidades de pó só para ter onde voltar. Cidades onde há casas vazias de madonas abandonadas. Casas de melancolia em vultos de água e de um deus adormecido. Glorificas esse pó como arquitecto infernal autor de edificações a searas e construções a carne. Abortam-se divindades, ouves? Divindades. Ouves as suplicantes filhas de Io? E morre-se de cantar a canção.&lt;br /&gt;E o irmão do meu avô, o Joaquim, morreu afogado aos dezanove anos.&lt;br /&gt;Quarenta cidades que foram morrer ao mar. Quarenta cidades que se fizeram navios, a D. Graça vele por eles. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;O peixe faz a gestação dos filhos na boca e é quando a abre que dá à luz. Como é que a D. Graça explica que a baleia não seja um peixe? Que o seu canto não seja fértil. Que o seu canto não seja o mais doloroso dos partos. E qual é o ser que não se comove com o grito da besta?&lt;br /&gt;Abortos de divindades. Abortos de divindades. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;D. Graça não minta que eu sei que nunca foi criança. Já nasceu assim, encarquilhada e de quatro corvos a grasnarem-lhe nas linhas dos olhos. Como aqueles oito vasos da varanda, a D. Graça já nasceu assim, todos com a mesma antiga disposição. Que o tempo é aquilo que o Gigante cospe, aquilo que nos agarra ao chão e não se vê.&lt;br /&gt;- Ficas aí. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Combate titânico no teu fundar de cidades, o Gigante não te toca e é eterno que morres. Renascido de cada aborto. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;A senhora agora sente-se, chame a sua irmã, ela que me fale dele.&lt;br /&gt;- Oh Graça, era esperto o rapaz não era? &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Meu amor, há rebanhos de amantes sem pulsos que regressam a Casa.&lt;br /&gt;Eu perdi a chave e construi uma varanda de costas para o mar, para voltar a entrar.&lt;br /&gt;Era esperto era. Agora chegue-se aqui. D. Graça tape-me os olhos. Regressamos a casa. Há quarenta navios a caminho do fundo. A D. Graça sabe o que é uma baleia a sair de uma gaveta? O canto doloroso da besta a parir centenas de criaturas. A Musa vai dar à luz. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;- Sim, sempre foi para fora. Dizem que é doutor, que casou… &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;D. Graça tape-me os olhos, pobre prosélita. Embale-me com esses quatro corvos que lhe cantam na cara. A Musa vai dar à luz. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-2914085656351913527?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/2914085656351913527'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/2914085656351913527'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2011/01/d-graca.html' title='D. Graça'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-8564057645289284484</id><published>2010-11-30T16:44:00.000-08:00</published><updated>2010-11-30T16:57:14.501-08:00</updated><title type='text'>Ossário dormente escrito a dez mãos</title><content type='html'>Aleluias agrilhoadas&lt;br /&gt;Orações com tecto&lt;br /&gt;A marcha meia adormecida dos patriotas da mesma aldeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Latitudes invertidas. Cordas enroladas na superfície que se fez pés. Últimas danças do cume da inversão, vestidas em cordas. Indumento ao que perece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aleluias agrilhoadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cinco chaves em cinco fechaduras de cinco portas diferentes. Retomam-se as infâncias:&lt;br /&gt;- «Ao três.&lt;br /&gt;Nada do outro lado.&lt;br /&gt;Voltam ao sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas há estas aleluias agrilhoadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contos calvários de crianças, feitos às escuras. Escritos não com luvas, mas de pele e carne arrancados, de sangue escoado, escritos com os ossos. Que um órfão não pode afrontar ninguém. Fecham-se então os círculos sem testemunho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela ali seduziu Atlas para ver se o céu caia de vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ossário dormente escrito a dez mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Expurgar o pernicioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Costuram litografias uns para os outros. Uma tessitura que inventa uma Pátria ou que cerra os olhos para lembrar outra perdida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois, e usam chapéus de infortúnios; sim sim, decapitam flores; também inventam musas provincianas, meu senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há cinco órfãos que pintam paisagens em feridas. Há cinco órfãos que se afogaram para visitar Ofélia.&lt;br /&gt;Não fosse a Dinamarca estar longe e o pó ser surdo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cinco crianças que, na hora da barricada, guardam na boca a mesma palavra. Cantam a mesma canção, muito turva, quase rude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que afinal, sempre há uma criatura dentro daquele ventre. Que canta inteira, ossos carnes e sangue.&lt;br /&gt;Afinal, sempre se pode amar o pó. E celebrá-lo calada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-8564057645289284484?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8564057645289284484'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8564057645289284484'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2010/11/ossario-dormente-escrito-dez-maos.html' title='Ossário dormente escrito a dez mãos'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-8249079457679607755</id><published>2010-11-02T13:12:00.000-07:00</published><updated>2010-11-02T13:14:31.756-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_voJswKGqIao/TNBw97VRKOI/AAAAAAAAAFA/YoG6IRmlVZw/s1600/modigliani,+le+jeune+apprenti.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 272px; DISPLAY: block; HEIGHT: 400px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5535048151239567586" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_voJswKGqIao/TNBw97VRKOI/AAAAAAAAAFA/YoG6IRmlVZw/s400/modigliani,+le+jeune+apprenti.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;E para te manteres vivo morres mais do que os outros.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-8249079457679607755?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8249079457679607755'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8249079457679607755'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2010/11/e-para-te-manteres-vivo-morres-mais-do.html' title=''/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_voJswKGqIao/TNBw97VRKOI/AAAAAAAAAFA/YoG6IRmlVZw/s72-c/modigliani,+le+jeune+apprenti.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-8694843583035515827</id><published>2010-10-19T15:54:00.000-07:00</published><updated>2012-02-09T07:19:08.753-08:00</updated><title type='text'>Até que também esta árvore incendeie</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Deixem pender os fios das marionetas, que estamos cansados, que arfamos. Os fios que se teceram no engasgar entre o primeiro e o último som. Foi num soluço que foram tecidas estas membranas aos milhares que nos ligam a uma máquina autista. Membranas de uma areia eléctrica que corre com uma contagem do tempo viciada no fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que se rasgue a camisa de Deus e a do Diabo. Que a ditadura da criação devolva ao homem, àquele que nunca foi, o húmus íntimo onde cravaremos estandartes. As terras virgens. Ao homem que nunca fomos, essas terras. Que elas existam ou não, não importa.&lt;br /&gt;A pele que transpira a fronteira, que destila o desenho de que se fez linha, saudosa da idade em que não foi sozinha. Que essa idade tenha existido ou não, não importa.&lt;br /&gt;O projéctil doente da iconografia do todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saber que o canto de Orfeu não salva ninguém, que é como o condenado à morte que pede para ser executado antes do amanhecer. Para não macular a linhagem.&lt;br /&gt;E para o assassino é a mesma coisa.&lt;br /&gt;Que as ninfas recolham os seus ossos depois. Não salva ninguém.&lt;br /&gt;O cigarro que o assassino vai acender antes ou depois da madrugada é o mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O canto de Orfeu é um canto fúnebre, da ausência ao cume do seu lirismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E escuta, há trinta assassinos por linha. Trinta assassinos por linha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A criança que filma o Éden pela última vez. O encerrar da eternidade. Que ela não é um devir. É o dançar bêbado do astro. A criança que depois de filmar faz uma fogueira e nela encerra todas as coisas desta eternidade, que já foi. Trôpega, ainda de membranas fixas à máquina autista, a criança olha sentada as cinzas e, no meio dos escombros, vê a câmara sozinha que a filma. O astro bate nos quatro cantos do campo da criança como um mosquito cego pela luz. Ainda não é tempo de arder. Uma repetição que crava as unhas na parede como pregos e que se estende como lençol infernal faz-se espelho de um tempo enfermo. A criança surda ao latejar do astro no embater em cada prego. Ainda não é tempo de arder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio são duas mãos que vão talhando o espaço. O fim do Mundo é a tinta corrosiva que tragará o véu que cobre a escultura final.&lt;br /&gt;Saber que cada canto de Orfeu é uma oração que pede para ficar a assistir.&lt;br /&gt;E que a única forma de ver a escultura, é esculpindo-a.&lt;br /&gt;E que me calo, para que tudo se cale.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que não me vou embora enquanto não te esculpir o silêncio com o que escorre do meu violentar ao corpo do astro bêbado. E que esse líquido espesso contem os dois olhos da criança cineasta do Éden.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, escuta, há trinta assassinos por linha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho navalhas que se passeiam pelas minhas veias. Orquídeas são um exército cuja fome nuclear devora a castidade do contorno das pétalas. Há uma bíblia escrita em cicatrizes feitas a ferro quente no meu corpo, e sou analfabeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o condenado fosse executado nas tintas da Aurora, Orfeu não adormecia besta alguma, era um suicídio. Que Orfeu é a besta. Mas que cada canto seu é a escultura final. Só essa escultura alumia o anterior ao Início. Que a criança cineasta do Éden é aquela que teve de ser sacrificada. Para que percebessemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada túmulo de Orfeu é o leito onde dormem o Início e o Fim. Dizer que vencemos a criação. E que foi preciso rasgar o fogo para criar cama nele. Que foi preciso rasgarmos o fogo para podermos arder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arde a primeira árvore e rebentam gargantas com a maçã de Adão em fumo. É desse cheiro a carnificina que brota a nova criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando acabar de te esculpir, corto os fios. Que fiquem os outros. Eu corto os fios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que também esta árvore incendeie. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-8694843583035515827?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8694843583035515827'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8694843583035515827'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2010/10/deixem-pender-os-fios-das-marionetas.html' title='Até que também esta árvore incendeie'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-268766195342492709</id><published>2010-09-05T19:20:00.000-07:00</published><updated>2012-02-09T07:19:28.318-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Senhor, é preciso que escreva qualquer coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Valha-me deus homem, escreva qualquer coisa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Assine pelo menos, são as regras da casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Senhor C sai de sorriso ledo. E antes de fechar a porta diz para o lado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se quando morrer o meu tombar fizer, por um bocado, sombra em qualquer espacinho de Lisboa, já está. Já está amigo. Andamos aqui a vida toda porque um tipo lá em cima faz sombra, tombado por toda a eternidade. O bêbado. Ora boa tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passa o rei que vai nu, grita a cigana sem olho, zurra o burro, cai o bobo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pa pa pa pa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O anão assusta a menina. A menina grita e um foguete nas meias de vidro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sonâmbulo recita o «Cântico das Criaturas» do Assis, a partir de um guardanapo imundo de 1900 e troca o passo. Paço. Passo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Àquele que é tranquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Àquele que é tranquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oremos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É preciso fazer as contas. Para que possamos ir todos embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cântico podre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mãezinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O último a sair fecha a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«É preciso fazer qualquer coisa contra o medo», escrevia o lingrinhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que venha cá cima, se tiver coragem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passarinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passarinhos, passarinhos. Faremos a folha ao cavaleiro de Chamilly, querida soror. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser carrasco, fazer as contas, apagar as luzes. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pranto como solução única face ao tédio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Senhor C. Sangra-lhe o tédio. Dói-lhe o mecanismo de todos os relógios que compõem coro das horas belas. O Senhor C e a cera das horas belas. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A procissão dos carrascos. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Monsieur, je vous demande pardon. Je ne l’ai pas fait exprès…» Marie Antoinette&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o carrasco C a dizer que hoje não. Hoje não pode ir. A este não vai ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que se comprometam os burros, que não lhes pesa a carga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se há quem se salve, é assim que se salva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carrasco C apaga então as luzes e, pela ...ésima noite, chega a casa. Despe o traje que o faz carrasco. Olha para a guilhotina e esboça um leve sorriso. Assenta os pés na eternidade e fixa-os a todos, os condenados, os orfeus e as antonietas, os chamillys. Pilatos é a vontade de Cristo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Temos sombra hoje. – A beata que só abre os olhos ao domingo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A sombra semanal aos burros a quem não pesa a carga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Céu e Terra. Céu espelho Terra espelho. O carrasco na terra.&lt;br /&gt;Justiça divina.&lt;br /&gt;Loucos são os que pensam que dormimos. Vamos perecendo dignamente. Apodrecendo dignamente. De foice na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sônambulos no cortejo de carrascos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As mãos sujas limpas ao hábito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A justiça divina quando aquele que lhe dá nome se ausentar. Primogénitos da contemporaneidade sem peso. Ser carrasco para dizer que nesse dia não se pode. Fazer sombra assim.&lt;br /&gt;Só não cobre a nudez. É aí, nesse corpo nu, que a sombra ubíqua não cobre, que habita toda a divindade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carrasco espia a bela mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«É preciso fazer qualquer coisa contra o medo.»&lt;br /&gt;É preciso dizer-lhes que o carrasco é Aquele, que escreve umas coisas, aquando a quietude de todos os inquilinos; que é um tipo calmo, que tem uma gata chamada Guilhotina. Que não faz mal a ninguém, não faz mal a ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ainda assim,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«&lt;strong&gt;É preciso fazer qualquer coisa contra o medo&lt;/strong&gt;.» &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-268766195342492709?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/268766195342492709'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/268766195342492709'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2010/09/senhor-e-preciso-que-escreva-qualquer_05.html' title=''/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-8253022841706667428</id><published>2010-08-24T17:52:00.000-07:00</published><updated>2012-02-09T07:19:47.666-08:00</updated><title type='text'>A Chama segue o Fogo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ouvi, no café, uma mulher dizer que se é louco porque se escolheu ser louco. Que varia de pessoa para pessoa, que para ela veio com um grito que escolheu dar, mas que sabe delas que se atiraram prostradas para o chão, outras com um corte aqui ou ali, outros cuja escolha os consumou na hora. [Outras mulheres à volta da voz.] Diz que é uma frecha que se escolhe abrir, um buraco na parede. - A loucura são ratos no escapulir pela parede. É abrir um buraco na parede e deixar os ratos passarem. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E o homem do lado, de repugnância debochada na cara:&lt;br /&gt;- A esta já toquei eu concertina nas costelas. Quase nem servia para o que vinha, que não se aguentava de pé. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A Joana calada. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os seios da Joana do Raul Brandão são dois santuários abandonados. Anda pelas ruas a embalar os três abortos, inchada dos cordões umbilicais que fazem a teia da miséria dentro, halo do bairro não nascido; vai falando com eles, conta-lhes histórias. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;- É para ver se me aguento. – diz baixinho a quem assiste ao triste espectáculo. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Puta um nome tão estranho, há casas onde já não entro. – diz outra cuja cara não distingo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E o peito de todas estas, aqui sentadas, pautado, com todos os ossos visíveis. Osso, cadáver. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Memento mori&lt;/em&gt;, oh Cartier-Bresson, é esta a película das minhas náuseas. Fotogramas de enjoos consumados numa qualquer fracção matemática que não entendo, de vinte e quatro sobre um. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A filigrana da minha película chama-se gravidade. É tudo o que quis subir e caiu cravado na tela. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A filigrana da minha película são pássaros sacrificados. Sacrifício. É ir beijar a virgem Ifigénia ao altar por onde o tempo não passou e ainda Tróia está intacta. É, sentada a esta mesa, benzer Ifigénia com o que há de azul no meu cigarro. A chama segue o fogo. Estar perante a donzela que foi sacrificada como um cordeiro. O importante não vai muito para além disto, talvez não vá muito para além de fazer jus aos mortos. Tróia só é vencida quando eu o escrever. Há uma máquina cinemática por detrás de cada espelho, todas as horas aí desfilam. Ifigénia no altar é o parar da máquina. A forma da cruz da paixão de Cristo é talvez o primeiro ecrã do Ocidente. E o espelho pára. E o espelho encrava. É trancar horas mónadas e esperar que cresçam em olhos sinópticos. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E o corpo muda com o Homem, e os olhos que eram só espelho não o são mais. Do profano ao sagrado. E a chama segue o fogo. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ser Bartleby para preferir sempre não fazer, não o fazer. E mitigar a tristeza pela inocuidade da Humanidade só com a minha quietude.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O real é a reprodução da mentira, é a encenação tragicómica como contorno esmerado do mau-cheiro, nada redime nada. Também eu tenho casas onde já não entro. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A chama segue o fogo, a chama segue o fogo. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A serpente só apareceu depois de Eva se masturbar pela primeira vez. A serpente é a efígie da mão de Eva. Digo-vos, serpentes são dedos de mulher.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O diabo desenhou um tabuleiro de xadrez em pregos sobre as ruínas da decência. Escolhe as mais desgraçadas das mulheres e cada uma delas assenta os dois primeiros dedos do pé num prego, sob o qual cede a dança ao diabo. Escolhe as mais belas das mulheres e cada duma delas assenta…&lt;br /&gt;Filmo o seu rodopiar trôpego de cima e é a antecâmara do fim aquilo que enquadro. As mais belas das mulheres. Um pé na morte e o outro no que não é morte, mas que também não é que dança infernal. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ser maldito, mal-dito. Porque Ser está mal escrito. Porque Ser está mal-dito. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Entrar na gruta da primeira hora. Ver que a chama segue o fogo. Sentir os ratos num corredor indiscernível parede dentro; fazer oferenda de pedaços meus a cada suicida e bajulá-lo como herói; sentir nas costas a Loba a aparecer e, com a nuca, vê-la a abrir a boca. Ah, e o Mundo inteiro a ejacular!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Isto é entre dois irmãos incestuosos. O incesto é a mais longa veia de fim do mundo, é uma perversão do tempo. E a chama segue o fogo. Foram relógios puxados pela dança macabra das mulheres de prego no pé, que concedem dança ao diabo, que me puseram defronte dele. Não há beleza que não seja opróbrio. Este tempo não era ainda o nosso. Não existe, afinal, filigrana que não seja a da carne, e é com a minha que me descubro. Desenha-me com os dedos para atenuar a minha cegueira, e é só. É a mesma a nossa carne, e só se inscreve com carne. Por isso embrulho os meus cotos. E a chama segue o fogo. E cotos palavra tão feia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;«- Irmão». &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A canção do cego que lamenta por nós. Ser Bacante para esquecer «incesto». Ter Dioniso com a navalha nas minhas coxas, por qualquer mel que delas há-de escorrer. E não o querer. Não querer nada. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A Joana do Brandão que passa agora defronte do cego. O cego de olhos brancos com as formas cujo único buril é a sensação. A Joana que nunca é vista, Joana fantasma pastora dos seus três fantasmas, agora não-embalados pela dança débil que entoa com o corpo pequeno. Uma sibila e um cego. A chama segue o fogo. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;«- Irmão, a chama segue o fogo. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A dança macabra lá em cima e cá em baixo é segunda-feira. E oiço a voz de abutre:&lt;br /&gt;-Hoje é o dia das mulheres da vida no cemitério. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E é o vento quem faz concertina das suas costelas agora. Já não são homens quem as dedilha. Todas as segundas-feiras, vinte mulheres sobem para o túmulo dos seus vinte amores desgraçados e deixam que o vento lhes dedilhe as costelas. Surdas à canção do desespero. A morte há-de chegar e elas não vão dar por nada. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Todas as segundas-feiras, espectador solitário, o cego pára de cantar, encosta a cabeça para trás e, de nuca assente na parede, recebe a mais desgraçada das músicas. A mais surda das músicas. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-8253022841706667428?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8253022841706667428'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8253022841706667428'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2010/08/ouvi-no-cafe-uma-mulher-dizer-que-se-e.html' title='A Chama segue o Fogo'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-6563428557281524324</id><published>2010-07-09T06:11:00.000-07:00</published><updated>2012-02-09T07:20:10.765-08:00</updated><title type='text'>9 de Julho, Acabo de fazer implodir um país</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Escrevo para não vomitar. &lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Há horas que só nos fazem mais velhos, não nos dão mais nada.&lt;br /&gt;Quando te carrego, é um luto o que carrego.&lt;br /&gt;Comes não te importa o quê.&lt;br /&gt;Olhas não te importa o quê.&lt;br /&gt;Fumas não te importa o quê.&lt;br /&gt;E dormes com não te importa o quê. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Não me importa também. Pinto-te com estas cores débeis que me escorrem dos braços. Que me escorrem do pescoço – orgasmo-pequena-morte-não-adeus-intervalo-de-luz-arde. Luz que arde e não me mata. Como o fogo do Purgatório dantesco. A chama segue o fogo. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Todos os dias há uma hora em que desapareço. Uma hora. Sinto a carne tornar-se pútrida, vejo-me de fora cirurgicamente, num talho obsceno com a minha carne pendurada, putrefacta. Entranhas gloriosas duma beatitude grotesca, entranhas alcoviteiras que se julgam duquesas. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Silêncio – o Primordial, anterior à organização do Cosmos. O Cosmos organiza-se quando surge o primeiro som.&lt;br /&gt;O belo é o caos que fica. É o braço de cosmos que não se organiza nunca. Organiza-se o que se entende. Só aqui o movimento perpétuo é sustido. O belo não se saberá, nunca. O discurso ao belo é a vénia, a osmose com ele, o silêncio. Ausente. O belo nunca está para nós. Ele está.&lt;br /&gt;Haverá poesia enquanto existir caos. Isto é dizer: sempre.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;Maria Madalena está entre as suas representações e a nossa cegueira. Nenhum outro sítio é digno da sua graça poisada. O intervalo sagrado. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;O Verbo está nas mãos daquele que, depois de ser dilacerado pelo Todo que se inscreve a agulha quente no interior de seus olhos, cega.&lt;br /&gt;Naquele, naquela que, sentada no quarto do Pai, do silêncio primordial, tendo a cabeça agarrada por ele, é em baixo penetrada por todos os poetas. Vivos e mortos. Vivos e mortos! O sangue que aí correrá será operário do único Paraíso que nos é possível habitar. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Homero, Borges e Dante foram raparigas violadas pelas feras ternas da Poesia, enquanto fixavam alto, de olhos húmidos. Depois cegaram. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Escrevo para não vomitar. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;E convoco-te aqui. Para que me segures a cabeça e me afagues o vómito, caso venha. Para que me abraces se implodir por dentro, para que os outros não o oiçam. Para que alimentes as crianças concebidas neste quarto e criadas aqui. Nesses anos suspensos que não existiram. Onde eu envelheci, onde tu envelheceste. Onde as minhas mãos se alongaram e os teus calos assentaram.&lt;br /&gt;A única coisa que garante tudo isto é aquela velha sentada lá em cima, em sua cadeira polida, de madeira. Somos sempre três. Não a vês, começas a conseguir ouvi-la de quando em vez, mas sabes que é a mim que ouves. A Santa Trindade é pintada por cada um. Eis a nossa. Aqui inaugurada.&lt;br /&gt;O Reino dos Céus é hoje. As portas no seu desflorar rasgam-me as costelas. O orgasmo da ascensão. Dor. Prazer. Dor. A caneta cai. Já não estou. Já não estás. E há qualquer coisa de mim que cerca a mão da velha como insecto sedento, não, como fungo, fungo de cadáver que é mortalha da mão da velha, que mesmo assim te convoca. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Convoco-te aqui…&lt;br /&gt;Já só carne e nervos, vermelho cor de suco, vermelho de piedade (o Homem, coitadinho, coitadinho do Homem). Fungo. Vermelho. Filho de cadáver que não desliga a câmara nunca. E que enquadra a tua cara. Sempre. Celibatário. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Santo: aquele que peca e depois ascende.&lt;br /&gt;Terão de inventar nova palavra para quem peca, ascende e aqui deixa o seu fungo a inscrever.&lt;br /&gt;E então vêm os poetas, lá do Inferno, saudosos e nostálgicos de Beatriz, abrem os sacos, tiram as ferramentas, fecham os olhos, e nessa cegueira lapidam a nova palavra inaugurada. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Nortada nesse país que fiz de ti. Porque fui eu quem te escreveu, quem te criou. É por milagre que respiras. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Vomito para ser menos ao mundo e para que haja menos mundo em mim.&lt;br /&gt;Tenho 4000 anos e vomito como um recém-nascido débil. Dói-me o princípio do Mundo.&lt;br /&gt;E morro de mim. Mato-te também. 9 de Julho, acabo de fazer implodir um país.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-6563428557281524324?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/6563428557281524324'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/6563428557281524324'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2010/07/9-de-julho-acabo-de-fazer-implodir-um.html' title='9 de Julho, Acabo de fazer implodir um país'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-2132656498916199535</id><published>2009-12-05T16:00:00.000-08:00</published><updated>2012-02-09T07:20:43.462-08:00</updated><title type='text'>Escrava</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_voJswKGqIao/Sxr2OKWsuMI/AAAAAAAAAEE/nKKV1G6MQEo/s1600-h/Marlene_Dumas,_The_Kiss,_2003,_oil_on_canvas_(Artist_Portfolio).jpg"&gt;&lt;/a&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ele cai prostrado no chão. Ela grita. Agarra o vestido preto como se dele nascesse uma cabeça. Morde as mãos. Há sangue nos nós dos dedos. O silêncio e o Nada procuram amor. O homem procura o peito dela. Está vazio. Foi-se a feminilidade, foi-se a devoção. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Ainda acreditas na piedade?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;[Violoncelo]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Gritos. Constelações de gritos. O seu sangue menstrual implode por dentro. Tal buraco negro do que é ser homem e criança, ou apenas do que é ser criança. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Aniquilaste-me – disse ela.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Perdem-se as constelações e qualquer constatação será como dizer que temos os pés no chão. Mas ela tem o peito alado de quem chora pelo eterno. Ela, que jamais pisou o chão, de que só reconhece existência aquando os gritos do túmulo vazio, contendo já em si os gritos de um próximo, de um outro. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Quiseram enfiar-nos em gavetas, dar-nos nomes e raízes, é para eles inconcebível que uma árvore cresça por dentro, que corpo de mãe e filho se moldem nesse interior, sem metáforas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O Mundo morreu contigo. Todos os corpos foram enterrados contigo. Todos os meus amantes se suicidaram. Nisto, o nada continua a tecer em si o amor. Diz-se que o vazio só se consegue com o muito que em si contém. Diz que o vazio é camuflagem e que o nada é a termodinâmica dos ignorantes, que a invertem. (Canto a sinfonia do cosmos nas mil guitarras que engoliste &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Ainda estás para nascer, homem de ontem?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Conhecer-te foi um masturbar da minha cabeça. Para te matar há que matá-la também. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era Apolo quem acordava os mortos? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Não acredito na unidade. Não acreditamos na unidade – Confia o corpo de que se despede.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por cima do Mundo, há um escravo, uma escrava, é mulher, que tem em si uma corda presa ao ventre, sobre o seu vestido azul. Com essa corda, ela vai puxando o Mundo. Sozinha, na escuridão, ela gira. O seu vestido, noite e dia, com todos os corpos no regaço, vivos e mortos. As condenadas, as imortais, as eternas, as cansadas. Gira e o Mundo em torno dela gira. E aqui a mulher pode ser Ulisses. É essa a sua aventura desde sempre. Essa é a sua Odisseia. Contemplar o mar como outrora o fez Ulisses, é olhar seu vestido. Embarcar é olhar-se por de dentro. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ser mãe é rodar, é agarrar com as mãos o vestido que se lhe oferece e embrulhar-se na eterna mortalha que a escuridão vai abraçando. Toda ela, submersa no nada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Alguém acenda uma vela! Alguém acenda, por favor, uma vela&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando fazemos amor, ela pode parar por instantes. Todos os movimentos do Mundo estão no meu corpo e no teu. Ondulando. Fazer amor é destruir muros e muralhas, da pele à pedra. Dois corpos feitos instrumento de destruição. Fazer amor contigo é destruir. Os amantes são um clã secreto que em seus turnos clandestinos se unem na esperança invisível de Babel. Um corredor entre o céu e a terra, pois que os pés da mulher atrás jamais pisaram o chão. Há um índio suicida em cada grito de amante. Há um pacto de imortalidade entre quem faz girar o mundo. Os filhos do amor.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(Amor-orquestra&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A corda deixou de ser precisa. Agora é o seu cabelo branco que ela puxa, fazendo o Mundo beijar seu eixo. A corda deixou de ser precisa, como o cordão umbilical é cortado. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Acendam uma vela. O Nada é escuridão. É o Mundo retido num abraço de um condenado à morte: a cegueira.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O seu cabelo é o cordão de todas as mães, o seu suspiro é o transpirar da Terra.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Crédula como todos os dias, confio no vazio, sabendo que estás aí. Ao mais fraco alumiar, eis-te.&lt;br /&gt;- Mas nós não cremos na unidade! Nunca acreditámos na unidade &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nunca vais saber de que sou feita, nunca me farás as contas, nunca me vais contar os cabelos, nem os cordões umbilicais&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Nem os cordões umbilicais!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Senta-se na noite. O escultor trabalha com as mãos no vazio. O pintor pincela a tela que não há. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sob a vela surgem os pés feridos. Depois os joelhos ossudos. As coxas flamejantes. O ventre, berço. Os braços, de onde nascem todas as obras. O pescoço, tão fino que ameaça uma veia cortada. Branco, com o seu interior a dançar lá atrás. Todos os escritores trabalharam neste rosto, todas as bibliotecas inscreveram em si: Eterna. Os cabelos… e o mundo que gira.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E em cada fim, o poeta cria o Mundo já criado. Como ver uma criança nascer é ver toda a Humanidade abrir os olhos. A eterna paz dos teus braços. Nós, os filhos do amor, os obreiros do Mundo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E tu, criança que nasces, podes bem ser a mutação da espécie que é o Homem. Hei-de beijar-te até dizeres que não queres mais, que o meu ventre não é mais tua casa. Magnólias na tua efígie a celebrar a semi-existência tonitruante, tua e de todos nós. Adeus criança, adeus. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Hão-de fazer planisférios do teu interior, dilacerando a semi-existência trancada na pele. Facas brilhantes do imaginário. Timorata é a unidade. Sabemos bem onde se ergueu o Quinto Império, só não nos despimos a cegos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;«Imperador, és escravo» cantava Rimbaud&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-2132656498916199535?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/2132656498916199535'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/2132656498916199535'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2009/12/escrava.html' title='Escrava'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-3918562379639255053</id><published>2009-09-23T02:34:00.000-07:00</published><updated>2012-02-09T07:21:15.745-08:00</updated><title type='text'>Eu sem nada ver - Descontinuidades</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_voJswKGqIao/Srnuk3o3i9I/AAAAAAAAAD8/LDprbrVBecA/s1600-h/janine+antoni+touch.bmp"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não fui eu quem inventou os relógios, não fui eu quem inventou os números. ..., inocente em unidades de tempo. Tenho a idade do Mundo, não me podes negar nada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;De «coração», inocente na invenção do amor.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Corpo que é envelope. Inocente em guerras, jurou só se fazer explodir por de dentro.&lt;br /&gt;Estou farta de me passear por uma ponta de Mundo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sou bem mais que filha do meu pai. Muito embora o tenha marcado na cara e no – ah? – quando ouvi perfeitamente e quero triturar palavras, sentenças, dentro do ouvido. E no – ah? - não sou eu quem fala, é ele. Perdoem-me. Aqui sou incorrigível. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A osga na minha janela, uma comunhão de três meses. Celebramo-la sempre que assenta e se apeia, ainda não percebi se tem como projecto algum dia entrar. De qualquer forma, explico-lhe que não deve, que não pode. Faço das minhas ordens vendas para os olhos em que ela nunca me permitiria tocar – Tocas-me e não volto jamais – e outrora tão familiar na minha boca esse – Tocas-me e não volto jamais. - Há coisas que devem ser mantidas assim - mudas sob ameaça do jamais. E eu sem saber que jamais era esse, desconfiada do amanhã, desconfiada das horas, com a certeza de que ao estender na vertical fios de cabelo me cairiam já brancos na cara. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;E ele insistia:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Olha para fora e vê como a noite nos cobre. Vê como está escuro.&lt;br /&gt;Eu sem nada ver.&lt;br /&gt;- Não consegues recordar o sol? Certeza de amanhã.&lt;br /&gt;Eu sem perceber que era aquilo do amanhã. Eu sem nada ver.&lt;br /&gt;Ele com os jogos infantis de todos os dias - O sol é a mentira do jamais. Está bem? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Eu a assentir, repleta de esquizofrenia sedativa. Sem nada ver.&lt;br /&gt;E ele voltava a insistir – Não te lembras, pois não? Da valsa lenta por entre o desenrolar das horas.&lt;br /&gt;– Que horas?&lt;br /&gt;- Na praia, madrugada na praia&lt;br /&gt;– Que praia?&lt;br /&gt;- O cão medroso à beira-mar – Sempre o cão, sempre o cão. Noctívagos. Companheiros. – Os pescadores de calças arregaçadas no mar; o sol que espreitava por detrás das nuvens; disseste que se fosses religiosa ali verias Deus.&lt;br /&gt;– Não.&lt;br /&gt;- Do homem magoado que nos sorriu, era o nosso metrónomo do tempo, a certeza de cada um dos seus passos.&lt;br /&gt;– Bolero de Ravel.&lt;br /&gt;- Está bem, Bolero. O maestro que coordenava o Bolero de Ravel naquela madrugada.&lt;br /&gt;– O homem que chorava com os violinos. Gritava com os violinos, comia-lhes as cordas.&lt;br /&gt;- Lembras-te dessa madrugada?&lt;br /&gt;Eu sem nada ver.&lt;br /&gt;Sem entender o tempo. Sem o entender a ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha,&lt;br /&gt;Carrega tudo isto nos braços e embala-o em cada passo que sobre este Mundo teus pés assentem. Uso outros corpos na insaciável busca pelo teu. Procuro sempre a história em que nela te possa caracterizar (desenho-te, pinto-te, dispo-te, visto-te, na mais irreal das beatitudes). Correspondes sempre, és de tal forma um sem forma que te construo em tudo o que toco sem mãos. Não és de tal forma que te defino como louco, sem qualquer prova de veracidade da constatação insana. Mas deixa-me que te diga que o louco é mais homem que o homem. Deixa-me que te mostre como é aí, na loucura, que habito, tal velha solitária, senhora de criação de vida sem criança, mãe de todos sem ninguém nunca a sair por entre este ventre. Deixa-me que, muda, te grite como és o meu túmulo da cegueira, onde deposito as palavras que me saem de todos os poros e nunca da mão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;E eu preciso que entendas que chamo «meu amor» a tudo quanto me comove. Preciso que entendas que chamo «meu amor» a todos os fantasmas transgressores de pele - Um dia passarei entre muralhas também. Que chores as guerras para que me entendas. Que ames a mulher para que compreendas as minhas mãos. Preciso que te envergonhes do ser humano para de seguida amá-lo mais. Que sejas um vagabundo. Que não existas, para que te saiba desenhar melhor. É preciso que não estejas aqui, para seres. Que não te iludas, não és meu mais que nada. És para o Mundo, e é nessa relação que me comoves. Nada mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa noite, o amor ficou suspenso. Como uma lata velha que se balança com o vento. Ninguém ousou tocar-lhe. Corpos entorpecidos pelo desejo que evitamos pelo medo de a ele sucumbir. Não suportamos que o mundo gire sem nós. E se todos nos refugiarmos assim, de corpo em corpo, como lava na terra, que é dos rios sem olhos onde assente o reflexo da terra? Acreditamos que não há reflexo sem olhos. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hoje somos duas crianças embaladas pelo grito que antecede o sufoco do terror. Arrastamos nossos corpos por cada nota desse grito. De boca aberta, sorvemos cada uma delas. Hoje as crianças não têm medo. Hoje as crianças, vagabundas, coçam os percevejos do pudor. Hoje as crianças saíram à rua clamando cadáveres livres. E como canto cigano baloiçam-se com o vento. Tal lata velha. Tal amor.&lt;br /&gt;E havemos de ser só tripas a passearem-se pelas ruas. E havemos de repelir todos os que as achem prostitutas, por se darem assim. Havemos de repelir todos os que não ousem beijar-nos as tripas.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Eu, do vestido cheio de sangue, o meu sangue. Eu a passear a minha própria morte. A leiloá-la. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A noite que não passa.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Menina, desculpe lá que o ilustrador deve estar mesmo a chegar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E é este o sítio onde a morte vem gritar. Gritos insuportáveis. E quando a tento acariciar, por pura benevolência, dou por mim com os braços envoltos na minha cintura.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mariana, é ir. E o hoje é até que vá, e pesam-me as badaladas do relógio que engoli quando ganhei nome.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;- O peso veio-te já do nome. Anda, troca de vestido e anda.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Chega o ilustrador. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Eu com a certeza de que ainda não era desta o jamais. Pois que ele via o dia nascer. Pois que, mais uma vez, trocei dele e de seu rosto de madrugada.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Eu sem nada ver. Cega, a consentir que me tocasses.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-3918562379639255053?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/3918562379639255053'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/3918562379639255053'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2009/09/eu-sem-nada-ver-descontinuidades.html' title='Eu sem nada ver - Descontinuidades'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-7071155870214043447</id><published>2009-06-15T15:23:00.000-07:00</published><updated>2012-02-09T07:21:36.629-08:00</updated><title type='text'>Às vezes temos de matar para chamar a Fénix</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_voJswKGqIao/SjbKlEHZeyI/AAAAAAAAAD0/niv8bFI5Jek/s1600-h/francesca+woodman.bmp"&gt;&lt;/a&gt; &lt;/div&gt;&lt;p&gt;Ela chegou a casa (é sempre Ela, nascemos de mãos dadas, nós as mulheres), penteia o cabelo, desenha firme traço negro no olho e finge duas rosáceas poeirentas na face. Senta-se em frente ao espelho e, pelo vigésimo dia consecutivo, procura resgatar-se lá de dentro, distinguir o que é seu. Verificar, vinte vezes, a massa estética de que é feita. Contemplar-se, com todo o direito a fazê-lo. &lt;/p&gt;&lt;div align="left"&gt;Somos um paradoxo. Somos marginais, somos forasteiras, somos invasoras. Somos sempre um incómodo disfarçado de volúpia. Cada palavra nossa traz provocação. E se queremos a igualdade de espaço, não a almejamos à semelhança do homem, vestimos o vestido idiossincrático intemporal e penetramos num mundo onde falta nosso busto. Sim, a marginalidade da mulher. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Ela. Antes de ser o seu nome, é mulher, antes de ser mulher é-me a mim. Pois que a minha cabeça molda o Mundo aos meus olhos e, a contemplação que lhe faço, é sempre recíproca, eu e ele, num mercado infinito de imagens. Ela é-me, é em mim, aqui acontece, nos meus olhos, de menina se fez mulher. Respeito-a. Dignidade – levanto-lhe o queixo com o meu. Vi uma fotografia sua em pequena, logo lhe adivinhei todos os traços, na cara pintei-lhe rugas a carvão, no seu corpo desenhei outros e tapei-os com a sua pele (disse-me uma vez que, a partir de certa idade, se tem estrangeiros em vez de vísceras), deitei-me nas suas costas para que se curvasses um pouco (é o apear do topo da torre de Babel, já viu de quase tudo).&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Vai fazer a Revolução. E vai começar no seu corpo, neste instante. Vem fazer revoluções com ela. «Somos bem mais que átomos».&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Está surda. Inscreve-lhe tuas palavras na sua pele. Pinta-lhe Courbet nas costas, mostra-lhes que somos nós quem escolhe os pontos erógenos. Rasga-lhe as pernas com letras de Sade. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Sente-se pútrida e prestes a sucumbir, não aceita nem concebe a ideia de ser dois em vez de uma. Tem as suas saídas de emergência. Atenção,&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Olha que ela te mata. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Mata-te à distância. Não te toca numa pedra do muro (chamam-lhe cara, os imberbes), Miguel Ângelo não lho permitiria. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Prometeu só te acariciar com os olhos. Matar-te-á com eles também.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;E ouves os cavalos da morte em debandada. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Precisa de sair desta cidade, não sabe qual estrangulará a outra primeiro, se a mulher se a cidade. «Estamos a tornar isto num amor doente, Lisboa. Estou farta de caminhar sobre fantasmas. Pedi-te que arrumasses a casa.»&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Está farta de ser cavalo de Tróia (pendura as máscaras, uma por uma). Já a venceste, Lisboa. Desarma-a. Fá-la cair nua perante o lá fora. E pede-lhe a ele, ao homem, que a venha cobrir com roupas masculinas, é na desproporção que a clarividência foca a fragilidade. Mas, para isto, é preciso tornar a acordá-lo.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;E vem a Fénix, sim – é preciso cumprir os títulos, profecias não as há. Renasces do berço de cinzas que ela te preparou. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-7071155870214043447?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/7071155870214043447'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/7071155870214043447'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2009/06/as-vezes-temos-de-matar-para-chamar.html' title='Às vezes temos de matar para chamar a Fénix'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-455166861189017756</id><published>2009-06-15T13:15:00.000-07:00</published><updated>2009-06-15T15:32:47.371-07:00</updated><title type='text'>Bilhete amarelo, sujo e rasgado de um homem morto pela ideia de se morrer de solidão II</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_voJswKGqIao/Sjas57MfzCI/AAAAAAAAADs/wpaudqWKYO4/s1600-h/DSC01139.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5347651718691671074" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 300px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_voJswKGqIao/Sjas57MfzCI/AAAAAAAAADs/wpaudqWKYO4/s400/DSC01139.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_voJswKGqIao/SjasajZDAzI/AAAAAAAAADk/hSmeCUXNf1o/s1600-h/DSC01137.JPG"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Sou o sangue nunca derramado das hemorragias internas do coração.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Sou o ar nunca respirado nas overdoses.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Sou o último suspiro impossível aos corpos defuntos.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Sou o último tiro antes do armistício.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Sei que não faço mais que vaguear pelo ventre da minha mãe. De película em película. De página em página. De ser em ser. E são sempre, e no final, dois.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Anda lá, salta.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Dei voltas ao Mundo com o meu cordão umbilical.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Ainda acabas sufocado. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Sê benevolente.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Sou-o, Édipo. Faz-se tarde.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-455166861189017756?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/455166861189017756'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/455166861189017756'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2009/06/sou-o-sangue-nunca-derramado-das.html' title='Bilhete amarelo, sujo e rasgado de um homem morto pela ideia de se morrer de solidão II'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_voJswKGqIao/Sjas57MfzCI/AAAAAAAAADs/wpaudqWKYO4/s72-c/DSC01139.JPG' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-8748618208519349598</id><published>2009-06-08T13:16:00.000-07:00</published><updated>2009-06-08T13:31:53.163-07:00</updated><title type='text'>Bilhete amarelo, sujo e rasgado de um homem morto pela ideia de se morrer de solidão</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_voJswKGqIao/Si10mdLDCNI/AAAAAAAAADc/FklX0E2AFjk/s1600-h/DSC01137.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5345056536773462226" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 300px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_voJswKGqIao/Si10mdLDCNI/AAAAAAAAADc/FklX0E2AFjk/s400/DSC01137.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;No monte de Vénus assumi a eterna mistificação de mim para mim. Aceitei ver o espelho como charada, peremptoriamente. Aceitei apagar as pegadas que dei pelo sítio onde jurei nunca mais me voltar a encontrar. Dez anos depois, eis-me. Cá estou. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Já nem ser humano sou, &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;sou um ser nuclear que habita um buraco negro imperativo no dever à vida. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sou a insónia de todos os malucos. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sou o recalcamento de todos os assexuados. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sou a massa dos vómitos acumulados dos amores frustrados.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;(-Nunca hei-de escrever poesia - disse ele)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-8748618208519349598?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8748618208519349598'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8748618208519349598'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2009/06/bilhete-amarelo-sujo-e-rasgado-de-um.html' title='Bilhete amarelo, sujo e rasgado de um homem morto pela ideia de se morrer de solidão'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_voJswKGqIao/Si10mdLDCNI/AAAAAAAAADc/FklX0E2AFjk/s72-c/DSC01137.JPG' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-2031097426992789662</id><published>2009-05-17T20:14:00.000-07:00</published><updated>2012-02-09T07:24:44.573-08:00</updated><title type='text'>Gato bravo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Dizem dela que sempre foi esquisita. Dizem dela que só podia ter este fim. Dizem que se atirava para o chão quando via mendigos, balbuciando disparates. Dizem que não se podia tocar no seu vestido. Que não tolerava outros olhos nos seus. Que nunca jorrou palavra até aos oito anos. Que aquando o sangue entre as pernas pela primeira vez o usou para pintar os lábios e, de puerilidade sempre miserável, perguntou à mãe onde se guardava o batom. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Dizia Proust que “não se pode ler um romance sem emprestar à heroína os traços da mulher amada”. Façamos desta a amada do Mundo e vejamos a marca dos seus dentes em cada antebraço de mulher louca. Vejamos em cada mulher louca que a cabeça é a criadora da loucura que aqui lhe acusamos. Levanta os olhos, ergue a mão, acaricia o teu cabelo. És tu.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Era feia, muito feia. Mas dizem os poetas que nada se viu de mais bonito. Postura encarquilhada, costas curvadas de todas as vezes em que a sua esquizofrenia assentou no albergue mais próximo e, lívida, se moldou a ele; sapatos sempre dois tamanhos acima – dizem os insanos que carregava pedaços de outras cidades lá dentro, alega que nunca foi visitante de cidade alguma, era ela quem estava sempre do lado de dentro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Cuidado que é gato bravo. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Aristocrata de brasão, não hesitava em dizer-se saltimbanca a qualquer estranho, enquanto vasculhava caixotes cujo lixo se imiscuía na santidade da sua pele, bebendo gotas de um vinho já bebido e comendo trampa outrora regozijo de alguém, tudo o que pedia em troca eram sinais de provocação e náusea consumados.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O sadismo era a sua forma de habitar o amor dos outros - sempre desconhecidos. Ao chegar a casa, lavava-se até à misericórdia da pele, que sangrava pedindo clemência à loucura que era sua senhora. Sentava-se depois no salão já deserto pela tirania das horas e mastigava interminavelmente o seu cabelo negro. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Cuidado que é gato bravo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Dizem que na autópsia o seu coração ainda batia. Foi sempre esta a sua postura.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Cuidado que é gato bravo.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-2031097426992789662?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/2031097426992789662'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/2031097426992789662'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2009/05/fotografia-vic4u-dizem-dela-que-sempre.html' title='Gato bravo'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-8748748663067588763</id><published>2009-05-02T15:40:00.001-07:00</published><updated>2012-02-09T07:23:46.940-08:00</updated><title type='text'>Vem</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_voJswKGqIao/SfzMjg0oMSI/AAAAAAAAACs/zAIqFOG9V4M/s1600-h/Child+4+1988.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vem, que da réstia do amor que não há, sobra qualquer coisa. Vem ver-me despejar o amor aqui, não vejo melhor sítio. Vem ver a clausura de uma alma não penosa a espumar. Vem beber o que cai. Vem beber outro corpo no meu. Sou correia de transmissão e só sentirás o outro em mim. Todos vimos ao Mundo fazer qualquer coisa.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Vem ver a criança que grita, em vácuo, por entre o líquido amniótico: Três horas e estou fora. Limpem a sala. Daqui a três horas começarei a ser carcomido. Limpem a sala. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A espanhola do lado num grito desesperado: &lt;em&gt;Donde estan tus ojitos?&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Vem ver na sala ao lado o homem que morre. A morte. Tudo na agenda e faltou-lhe um dia para morrer. Dizia-me: Era bem bonito, em novo. E o temor à morte na presunção do passado. Cala-te velho. E agora a certeza de que estou viva só através da superioridade trazida pelo vislumbre da morte do trapo velho.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A espanhola, outrora infanta, hoje só borrões na cara: &lt;em&gt;Donde estan tus ojitos?&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Toma a minha mão na tua, velho, o Inverno cru nas suas mãos. Toma a minha intenção de lágrimas entupidas por cobardia. Só choro quando chove, disfarçar a fraqueza com algo que vem de cima parece-me nobre. Não tenho força, estou vazia, velho, vai à merda. Que uma coisa fique clara: não foi ele que me deixou porque partiu, fui eu que o deixei, permitindo que fosse. O sorriso cansado de um derrotado, um veterano de palco quando já não há ninguém do outro lado. Ele: Não me apetecia nada ir embora. Eu comovida. Ele: Não há ninguém lá em cima, pois não? E eu mais comovida. Ele: O raio da miúda. Eu impaciente para que se fosse, para que o pudesse abraçar à vontade. Ele: &lt;em&gt;Hekatombe&lt;/em&gt;. Eu já só cólera. Ele: (nada). Eu abraço. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A espanhola já só num sopro: &lt;em&gt;Donde estan tus ojitos?&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E tu, vem, experimenta o meu corpo na luz e na sombra. Experimenta-me a rir, experimenta-me na tentativa sempre frustrada de chorar. Não tenhas medo das mortes que carrego em mim. Não temas a amálgama de entradas e saídas que crio à minha volta. A celeuma miserável em mim contornar-te-á. Não temas sucumbir ao meu Mundo. Reconforta a espanhola, abençoa a criança e enche a boca do velho de terra. Experimenta-me os olhos com os teus, experimenta-me a sombra fundindo-a com a tua. Experimenta-me na ausência, que só vem depois de vires. Vem brincar às ausências. Vem &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-8748748663067588763?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8748748663067588763'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8748748663067588763'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2009/05/vem.html' title='Vem'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-8593951141986130099</id><published>2009-04-19T16:37:00.000-07:00</published><updated>2010-07-09T10:41:08.686-07:00</updated><title type='text'>Ainda bem que chegaram</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Nada mais bonito que ver um velho chorar. Contemplo a sua vénia ao Mundo. “Nunca serei digno do que não conheço”. Também eu nunca serei digna do Mundo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ainda bem que chegaram. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Jorge, que o Mundo seja espectador apaixonado da tua loucura, que a sugue, sôfrego, inebriado. Que caia pútrido, esgotado e te aplauda. Tu que és, mesmo despido sem mais nada, uma epopeia. Neófito do homem moderno, lutas contra a degradação da mente. Infinitas vénias.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ainda bem que chegaram.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A Sabrina é o Salvatore do “Cinema Paraíso”. São os olhos que nos engolem. A Sabrina entrega-se. Todos os dias, chega a casa com os braços repletos de humanidade, de arte, de vida. Neles tatua um poema infinito que lhe vai moldando o corpo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ainda bem que chegaram.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Maria Beatriz, que sejas musa do Mundo que acusas ser podre. Que as tuas personagens nos embalem a todos. Um dia em que mande alguma coisa, entrego-te a paz numa bandeja. Um dia em que mande alguma coisa, acordo Florbela Espanca e mando-a escrever-te um soneto. Um dia em que mande alguma coisa, enforco os demónios inquilinos da tua cabeça.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ainda bem que chegaram.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Façamos “tête-à-tête” com o Diabo. Bebamos uma cerveja evocando Rimbaud e tomando cada palmo de terra como o Inferno. Gritemos contra a alienação. Cuspamos, contra a fome, no prato que nos dão. Dancemos danças tribais no Rossio dizendo: não vos esqueci, meus queridos. Tomemo-nos nos braços uns dos outros, imitando Cristo na cruz: esta é a nossa religião. Empenhemos os nossos dejectos sobre Putin, Berlusconi, Al-Bashir e Mugabe. Calcemos nas orelhas os sapatos produzidos por crianças escravizadas. Que o &lt;em&gt;trum trum&lt;/em&gt; das máquinas produza em nós uma marcha fúnebre. Que a cada corte na pele que façamos, relembremos o Vietname, as duas grandes guerras, o Iraque. Que esse sangue nos transborde a vista. E expeli-lo em forma de paz! Que dancemos infinitamente ao som de músicas que não estão lá. Que nos embebedemos perdidos no trago amargo do álcool. Que acariciemos as rugas dos mais velhos gritando: isto é património da Humanidade! E que Jerusalém o seja também. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Que tenhamos esta consciência. Que nos façamos ETERNOS sem sermos imortais.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ainda bem que chegaram.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-8593951141986130099?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8593951141986130099'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8593951141986130099'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2009/04/ainda-bem-que-chegaram.html' title='Ainda bem que chegaram'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-6955699509292713329</id><published>2009-02-22T08:07:00.001-08:00</published><updated>2010-07-09T06:28:22.792-07:00</updated><title type='text'>Noctívagos</title><content type='html'>5h33 na minha varanda. Um cão raquítico deambuleia pela rua. Agasalho-me. Desço. Comida na mão. Arroz, acho. Sussurro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh cão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada um é o que é e ele é cão. Raquítico e desgraçado, mas cão. Hás-de ser cão até ao dia em que essas tuas costelas virarem morte e, por fim, te ingerirem. Há mal pior que ser manjar do próprio corpo? Tomou-lhe o corpo e engoliu-lhe a alma. Nada de confusões, ainda estamos no cão. Concentra-te. Não mulher não homem. Cão. Por onde te sai a fome que engoles todos os dias?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calo mil vozes para que me pareças bonito. E pareces. Majestoso. Às 5h33 da manhã és o ser mais livre desta cidade, e dás-me a honra de te conhecer. Dono e senhor da rua, os candeeiros iluminam-se para que passes. Luz, vida. Escuridão, morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso não durmo, sei lá se acordo amanhã. Não vá o preto da noite devorar-me, o sono é a antecâmara da morte. Não confio nem concebo o Mundo no dia em que lá não estiver. Fui incumbida de guardar o Mundo enquanto todos dormem. Somos imortais, tu e eu. É à noite que despertam os mortos, velhos amigos que não conheci, já disse, não concebo o Mundo sem mim. Este é o meu santuário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reclusa da noite, prossigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora os vivos. Feios, porcos e maus. Os meus favoritos. E tu quem julgas que és? Um deles, pois está claro.&lt;br /&gt;Desbocados, trovadores da Liberdade. Não sei onde paira. Não sei onde pairo. Não sem onde pairas. Não tens pairado por aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bebo a imortalidade, tão vossa. Se viver é ter alguma coisa e vocês não têm nada, não vivem, logo, não morrem. Morrer é só mais uma maneira de existir. Invejo-vos. Trinta vezes mais dignos que eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o meu lado esquerdo que me faz gostar de vocês. É o meu lado esquerdo, aquele que assenta as pernas cruzadas sobre a minha costela e o braço estrategicamente armado no meu ombro, que me faz gostar de vocês. (É tão &lt;em&gt;coquette&lt;/em&gt; o filho da mãe do meu coração).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celebrarão a nossa morte com champanhe e caviar. Ámen. Puxem lá as calças para cima, vá. Ai! desculpem, é que Henry Miller ensinou-me a reconhecer Deus como aquele que vem aos domingos mostrar o rabo aos fiéis. Para qualquer efeito ou susceptibilidade, acto consumado. Bem me avisaram para nunca confiar em quem ama uma francesa. Um pé, o outro. Tem-me sido tão difícil agarrar o equilíbrio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mera peça humorística de terceira categoria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me atreveria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não consegues dormir outra vez?&lt;br /&gt;- Não.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-6955699509292713329?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/6955699509292713329'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/6955699509292713329'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2009/02/noctivagos.html' title='Noctívagos'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-3644354398284054406</id><published>2009-02-06T14:01:00.000-08:00</published><updated>2010-07-06T17:25:51.849-07:00</updated><title type='text'>Sem título</title><content type='html'>Mesmo de olhos secos, posso escrever palavras inundadas. Onde transborda vida. A vida como prostituta cansada de repetir palavras babilónicas que não a convencem, cansada de abrir as pernas para um vazio equívoco (sentes alguma coisa?), a prostituta bafienta, pobre-diabo que dança, e ela dança, despida do rótulo que lhe colocaram e do labirinto contundente onde a trancaram, e ela dança, é menina, para mim não és só escória, ela que já não se consegue tocar com medo de invadir outro corpo (-Este corpo ainda é meu?), como cabem tantos homens em duas pernas magras, um corpete que finge ser cintura, uma boca e um só sexo? É daqui que todos somos oriundos. E ela dança. Minha bailarina de pés grandes e boca borratada. Meu huguenote dos dogmas que se dizem teus progenitores, não fazem mais que sincopar teu nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos pagamos por uma noite com ela e ela não ama ninguém. Deus foi só o homem que lhe pagou uma quantia mais alta por uma noite eterna. Sempre vi o Aleluia como uma espécie de orgasmo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Adamastor é um travesti. Naquele cabo jazem homens apaixonados. A vida é um sem-forma, habita sereias e controla-lhes o canto. Ainda acredito que o Tejo tem sereias e que o Sol de Lisboa é seu servo e eterno cenário, para que nelas nos percamos tão perdidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uns dias alguém que muito estimo disse que todos somos Madame Bovary. Não, a vida é Madame Bovary e ninguém vê isso. E quando a vêm coxa, chamam-lhe azar, não, é Madame Bovary. E quando se dizem traídos, chamam-lhe adúltera, não, é Madame Bovary.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida é uma prostituta a quem todos pagam com histórias, com lágrimas que mantêm os oceanos, de que acham que são feitos?, palavras de amor, o pedestal da prostituta assenta numa nuvem de penas. Quando partir esse pedestal torno-me imortal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O suicídio nada mais é que morrer por amor. Sempre o amor. Todos os que se suicidaram levaram consigo a pedra filosofal, a alquimia inveja-vos, meus filhos de Ninguém. Quando se atiraram e foram a gravidade, ela mesma, foram eles que lhe escreveram a fórmula…! Todos eles de braços abertos, Jesus Cristo ele mesmo. Quando abraço alguém, são os vossos braços que procuro. “Liberdade ou a morte”, é o vosso grito que tenho no ouvido quando me comovo. O fundo do oceano é um baú de vida e os peixes são o animal mais lúcido que a prostituta pariu. E quando vêm até nós e não conseguem respirar, esbofeteiam as ciências naturais, porque é a nossa cegueira que os sufoca. Sabem que os hospícios estão repletos de peixes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me ganhas Deus todo-o-poderoso, até ver ainda a embalo com palavras como estas e notas que nada valem, as minhas notas são genuínas cartas de amor de endereço perdido. As minhas notas são música melancólica que sai de pianos estragados e partidos. Defuntos, as minhas notas são música de pianos defuntos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre vi o Aleluia como uma espécie de orgasmo. O homem, bicho sedento de amor. A vida, a nossa amada infernal. É esta a tríade do Mundo?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-3644354398284054406?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/3644354398284054406'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/3644354398284054406'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2009/02/sem-titulo.html' title='Sem título'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-7580498187321636269</id><published>2009-01-24T16:22:00.000-08:00</published><updated>2009-01-25T05:03:36.306-08:00</updated><title type='text'>Momentos estilhaçados de um Mundo que temo não conseguir colar</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Pum!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Platão dizia: “Só os mortos conhecem o fim da guerra”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Pum!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Tournier escreveu: “Questiono-me se a guerra não é provocada senão pelo único objectivo de permitir ao adulto voltar a ser criança, regredir com alívio à idade das fantasias e dos soldadinhos de chumbo”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Pum! Pum!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Frantz Fenon dizia: “Qualquer indivíduo oprimido não pode sentir-se livre enquanto não matar um dos seus opressores”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Pum! Pum! Pum!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdeste a mão com que ontem acariciaste aquela mulher. Fizeste-o com todo o direito da entrega ao prazer. Despiste-a com essa mão que a raiva te engoliu e, com ela, o calor gelado da teia que a volúpia, não sendo aranha, teceu em vosso redor. A fina cortina que vos cobria, arrancou-a a tua mão ao saltar! Os nós dos teus dedos de súbito desataram-se.&lt;br /&gt;A ti, que lhe desenhaste as curvas do corpo com os dedos e, quando parecias perder-te em alguma delas, pintavas-lhe o contorno e refugiavas-te na sombra que ele criava. Trancado naquela sombra, nunca te sentiste tão livre, tão barricado contra o medo.&lt;br /&gt;Hoje, a mão foi-se. E tu com a esquerda não tens traço firme.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E tu, que agora caminhas com um fantasma ao teu lado… Tropeças nele a cada passo que arriscas. Vão ter de voltar a ensinar-te a andar, quando isto acabar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Veteranos de Guerra que enquanto lá estavam, tantas, tantas senhores da Guerra!, tantas cartas de amor escreveram. E ao regressarem perceberam que permanente, só a tinta da caneta com que as escreveram. Nada de amor! Nada de amor! Tremores e suores frios a meio da noite! Uma geração perdida! Uma perna perdida! Um olho de vidro! Quem habita uma casa de vidro nunca está fora nem dentro. Está sem estar. Não está, estando. Não é um de nós, é um &lt;em&gt;voyeur &lt;/em&gt;e nós somos, simultaneamente, seus &lt;em&gt;voyeurs&lt;/em&gt;. A sociedade já não é tua mãe, proclamou-te moribundo quando te abandonou entre tiros.&lt;br /&gt;Desgraçados, mostrem-me essas goelas para que os senhores da Guerra vejam o álcool em que estas se afogam.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Senhores da Guerra, sois filhos da mãe!&lt;br /&gt;Não.&lt;br /&gt;Senhores da Guerra, sois filhos da puta!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E tu, mulher! A teia que teces não termina. És Penélope. Olá Penélope. Sabes por quem esperas? Pois, não. A teia de Penélope nunca emanou o fim de coisa alguma, emana amor, sim, emana força, pois, emana paciência, tanta, emana Penélope, não, emana uma Penélope engolida pela teia, certo. É inacabável. Mas eu sei, Penélope, que de tantas teias de Penélope que hoje por aí se dizem existir, depois do teu Ulisses ter voltado e tantos outros Ulisses terem voltado a partir, a tua é a verdadeira. Sei que nela estão todas as palavras do Mundo, ainda que não saibas escrever, sei que nela estão todas as lágrimas do azul que os astronautas vêem do espaço (já é possível ir à lua, sabias Penélope?), ainda que nunca a alguém tenhas mostrado uma lágrima sequer, sei que nela está a Bíblia, o Corão, a Torá, o manual não-existente do ateísmo, a Humanidade, ainda que sejas apenas uma.&lt;br /&gt;Obrigada por esperares para sempre.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Menina que estranhas e te assustas com Sol que explode a meio da noite, espectáculo a que assistes da janela do teu quarto. Nós nascemos com a Natureza cá dentro e tu sabes que a meio da noite não há Sol. Sabes que não são trovões, conheces-lhes o brilho. Desculpa se não te consigo explicar que Sol é aquele que explode aqui e ali e que, quando explode, enche os teus ouvidos de gritos, os teus olhos de terror e a terra que te pertence, de sangue. Mas vem, encosta-te a mim.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O ser humano é sanguinário?&lt;br /&gt;Do teu peito que se rasga metricamente ao ritmo da dor saltam as entranhas dos instintos primários do Homem a que, aqui na terra de ninguém, o Mundo não conseguiu suster as rédeas. Não és homem, és bicho!&lt;br /&gt;És bicho quando matas aquele que conseguiu ultrapassar o medo do escuro e agora voltou a tê-lo. Quando enfrentas aquele que, de pé, hirto, pensa afogar-se no húmido das suas calças (é medo) e pede desculpa a quem lhe ensinou a não fazer xixi na cama. Não é este o leito da morte?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Senhores da Guerra, sois filhos da mãe!&lt;br /&gt;Não.&lt;br /&gt;Senhores da Guerra, sois filhos da puta!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A ti, que choras escondido atrás de uma rocha, gostava de te pôr a salvo, sarar-te as feridas, deitar-te e falar-te palavras que não são do teu Mundo, não são deste Mundo, são de um diferente, longínquo. Mas acabarias por matar-me também a mim.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E agora a vocês. Crianças mimadas que choram por plástico e electrónica que não têm. Modelos anorécticas que derramam lágrimas de crocodilo em frente a um espelho. Mulherzinhas irritantes cujo oco me ecoa na cabeça. Homens que não são homens, porque o quiseram ser demasiado. Jornalistas de notícias triviais que, de tanto quererem ser neutros e correctos, se tornam nulos. Quero arrancar-vos essa venda intransponível que vos impede de ver que, fora do vosso narcisismo, o Mundo está banhado de sangue.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Senhores da Guerra, sois filhos da mãe!&lt;br /&gt;Não.&lt;br /&gt;Senhores da Guerra, sois filhos da puta!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Choramos? &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-7580498187321636269?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/7580498187321636269'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/7580498187321636269'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2009/01/momentos-estilhaados-de-um-mundo-que.html' title='Momentos estilhaçados de um Mundo que temo não conseguir colar'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-7316475747320442923</id><published>2009-01-18T07:44:00.000-08:00</published><updated>2010-07-06T17:27:02.356-07:00</updated><title type='text'>Ó miserável que és cidade de mil amores</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Gosto muito de si. Gosto muito de si e desmonto-me por si,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda que estilhaçada, gosto de si. Emaranhada numa vida feita de palavras, tenho hoje medo que elas me faltem e sem elas fico nua diante de todos. Não é o rei que vai nu, esse tem escravos que o tapam. Tem bobos da corte que tropecem por ele. E a mim? Quem vai ousar o ridículo para cobrir a minha nudez desprovida de dignidade alguma que nunca conheci noutro bairro que não o das palavras? Quem é que cala a boca aos fantasmas mórbidos e deambulatórios que se arrastam atrás de mim nos inóspitos escombros que sozinha atravesso? Olhe, gosto de si que não merecia ser deste Mundo. Coro por si e na paleta do meu rosto o vermelho nem existe, tive de engolir todas as outras cores até atingir o estado psíquico de embriaguez de cores (sabes que não são cores, é amor-próprio) .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bato com a cabeça em todas as paredes do pancalismo, e diziam os avós do tradicional que o belo é verdadeiro e que o verdadeiro só o é se belo. Avô, desculpe, mas trocaram-lhe as voltas. Não há mais verdadeiro que o miserável, e eu que o encaro consciente do andrógeno que é. Eu que conheço tão bem o repúdio que está preso ao drama do miserável por uma corrente de ferro que dá 50 voltas ao Mundo e não se parte. Eu que sei que a chave do cadeado que me criou esta lógica, presa na corrente, foi engolida por quem pôs cimento no Mundo e pediu para que ele não caísse. Vai cair, devolvam-me as palavras que eu faço-o cair.&lt;br /&gt;E o direito consuetudinário dos que gostam diz que serão miseráveis enquanto forem verdadeiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vê:&lt;br /&gt;DIREITO CONSUETUDINÁRIO&lt;br /&gt;1. Os que gostam:&lt;br /&gt;a) Serão sempre miseráveis enquanto disserem que gostam;&lt;br /&gt;b) Estão-se nas tintas para o direito e não sabem preencher alínea que foi feita para inglês ver;&lt;br /&gt;c) Quando deres por ti a dizer “Gosto muito de si” tens alíneas até não haver alfabeto e vês-te a criar letras (e por isso lá em cima (não no Céu estúpidos, no texto, que nem existe porque escrevi isto enquanto dormia imaginando que ainda me restavam palavras) me mostro estilhaçada, as letras faltaram-me e tive de as inverter para criar novas).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E só quando pegares num figurino que te custa a vestir, que o corpo estranha porque não é dele, te vês na tribuna do belo. E pões adereços que dizem que estás feliz, tudo isto porque enrolaste a semântica com uma perna de cada lado, descobrindo que adereço também significa endereço e dizes habitar a casa da verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O belo é nada e dei um pontapé ao miserável, porque aprendi a não gostar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas gosto infinitamente de si. Sou cidade de mil amores e deixei o meu nome escrito por toda a parte para que, em cada esquina, me lembre de quem fui e já não sou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já amei mil vezes e assinei o meu nome por baixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou cidade de mil amores. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-7316475747320442923?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/7316475747320442923'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/7316475747320442923'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2009/01/miservel-que-s-cidade-de-mil-amores.html' title='Ó miserável que és cidade de mil amores'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-7698631158313808788</id><published>2009-01-04T18:07:00.000-08:00</published><updated>2009-01-04T18:10:53.989-08:00</updated><title type='text'>Tempestade</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;E chovesse mais qualquer coisa em mim da forma que estas palavras tempestuosas se arrancam a si mesmas por entre os meus dedos. E pudesse eu mandar naquilo que devo expelir, e pudesse eu tornar-me genial como quem contorna a esquina e esboça um sorriso a indefinido alguém, depois de uma noite complicada. &lt;strong&gt;E pudesse eu, porque é mesmo isso o que desejo, engolir-vos a todos. Engolir-vos a todos com esta boca que me consome.&lt;/strong&gt; Consome-me pelo que sai sem querer, por dar o dito por não dito, pelo que deveria ter dito e ainda hoje me incomoda na garganta a que chamo espinha, porque todo o meu corpo se articula através dela. E pudesse eu controlar a mente que, por imaginar, acaba por criar. Não na minha vida, mas na vida dos outros. Juro que aqueles que ontem conheceste, foi da minha cabeça que saíram. E tu, juro que o homem que te matou, fui eu que o criei, porque por momentos desejei que deixasses de existir. Juro também que frequentemente mergulho na metafísica e que não há sítio onde me sinta mais confortável. Perco-me tão absolutamente nela que já tive de ir ao Dicionário ver o seu significado, só para saber se apesar de tudo o que penso dela e através dela, continua a mesma. Parecia-me irreal que, de tudo o que dela foi crescendo em mim, em nada se alterasse para os outros. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Encontro-me no meio de duas estradas. Uma é a do projecto de quem sou, onde defino meticulosamente tudo o que acho que devo ser e albergar em mim, vejo o fim da estrada e a linha do horizonte é tão nítida que incomoda. A outra, na outra, nada é definido e tudo é névoa, sou quem eu quiser e não tenho qualquer autoridade sobre mim. Insurreição! A estrada da insurreição e dos doidos. As coordenadas da linha do horizonte são os meus pés e a gravidade é a única coisa que consigo palpar (sempre tropecei muito eu). Encontro-me com um pé de cada lado (tenho dois pés, singularidade das singularidades). E se, por um lado, consigo engolir-vos a todos de forma bastante mais perceptível quando me encontro na estrada do projecto, é na estrada da insurreição que ganho bocarra. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O que eu quero mesmo, é engolir-vos a todos.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-7698631158313808788?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/7698631158313808788'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/7698631158313808788'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2009/01/tempestade.html' title='Tempestade'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-4211356288662927466</id><published>2008-12-16T19:18:00.000-08:00</published><updated>2008-12-16T19:23:43.371-08:00</updated><title type='text'>Humanidade</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Séculos e séculos de civilização, o Homem sempre atrás do próprio Homem. A criar teorias, inventários de comportamentos, previsões e expectativas. O Homem em busca de si mesmo, da mesma forma incessante que procura o outro, o próximo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Milhões e milhões da mesma espécie passaram pelas, mais ignóbeis no avançar do conhecimento, mãos da História. (Não, não troquei ideias. Cedo percebemos que, com a descoberta do tudo, o nada expande-se insanavelmente. E o tudo torna-se nada. Quantos não se encontraram a si mesmos loucos, nesta frustrante dicotomia do conhecimento?). Ainda não nos conhecemos. E eis-nos hoje, confortáveis estigmas do que aqui passou, de grande ou atroz. Sem abanar nada que não o nosso crivo, preso às entranhas do passado. Ora chorando-o, ora reinventando-o, ora negando-o. Ainda temos estofo para abanar o Mundo? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Homens e mulheres, tantas vezes preocupados em demarcar-se das suas diferenças de forma errada, esquecem-se daquilo em que somos iguais. Humanidade. A dança dos sexos vacila quando a humanidade dá o seu grito d’alma. E Humanidade nada mais é que igualdade. O que foi? O homem nunca se sentiu uma puta? (Porque é que puta é um cliché da literatura? Hoje, puta (ai credo, cale-me essa boca! Caramba que o medo das heresias já me fez enfiar parêntesis dentro de parêntesis) é uma palavra só minha). E se um homem não chora, algo se passa com as suas glândulas lacrimais. Perguntem-lhe se são teimosas. Perguntem-lhe se, enquanto habitavam olhos de menino alguém lhes disse que “um homem não chora”. Perguntem-lhe se uma delas não se chama Maria e a outra Madalena, e quantas vezes esse menino não precisou de virar Maria Madalena, ela mesma. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Despindo um e outro, homem e mulher, encontramos o mesmo. Restos de um abraço que nos fugiu, restos de um abraço que não foi dado. O medo, que nos consome a todos com a mesma boca. Os instintos básicos, intrínsecos nas entranhas não só do que somos, mas de quem somos. A complacência em que batalhamos para os que gostamos ou simplesmente tememos. A auto-complacência que serve o egocentrismo e narcisismo em que, à menor distracção, tendemos a tropeçar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A fraqueza comum ao ser humano é a sua maior virtude. Não é ela que faz o ser humano e nos distingue de qualquer outra coisa a que muitos teimam em chamar Deus (um deles, sei lá, são vossos, não meus)? É ela que grita perante a surdez perpétua da diferença. A verdade (ai cliché dos clichés, não a deixem repetir o que já tantos disseram), é que estamos todos no mesmo barco. E eu só sou eu enquanto relação com o outro, o estrangeiro à minha vida. Saber que em mim cabem todos os outros e que, se me constroem, são afinal eu mesma. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando o Eu longínquo chora, este meu eu devia limpar os olhos. E saber que, calar uma boca, é calar-nos a todos. E saber que a Humanidade é isto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha para ti. Bêbada de palavras. Outra vez. Não tens vergonha? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Olha para mim. Bêbada de palavras. Outra vez. Não.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-4211356288662927466?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/4211356288662927466'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/4211356288662927466'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2008/12/humanidade.html' title='Humanidade'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-8182818309919949323</id><published>2008-12-10T15:06:00.000-08:00</published><updated>2008-12-10T15:09:23.653-08:00</updated><title type='text'>Verdades escancaradas</title><content type='html'>Eu, entontecida pelo cantar tonto dos pássaros que me chagam a cabeça todo o santo dia. Reconforta-me saber que eles não gostam do cheiro a tabaco (tens a certeza?), neste marasmo contextualizado e fechado em 24 horas e não mais que isso.&lt;br /&gt;Chamo o amanhã. Verdades escancaradas em dias gloriosos. As minhas, os meus.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-8182818309919949323?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8182818309919949323'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8182818309919949323'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2008/12/verdades-escancaradas.html' title='Verdades escancaradas'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3039765785423017329.post-8690060226291192713</id><published>2008-11-18T17:57:00.000-08:00</published><updated>2012-02-09T07:22:15.816-08:00</updated><title type='text'>ESPAÇOPOUPOESPAÇO</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_voJswKGqIao/SSN3pvCgqSI/AAAAAAAAABU/bTQl6y57ixw/s1600-h/de+Cond%C3%A9+Nast.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hojepouponosespaçosparaganharespaço. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Naopercebifoiqueoqueestavaamaiseraestapartedemimquesuprimetudo.Eraissoquemeentalava.Nuncafoiafaltadeespaço.Essesempreesteveaqui,igualaelemesmo.Nãodigodisparatesquandodigoqueamutanteeraeu.Quematropelavaaminharespiraçãoeraeu,nuncaoburacoondemeachavafechada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Soucomoohomemquemediatudoemchávenasdecaféeoqueeletevedeentornarpelocaminho.Ahhomemoquetuentornastepelocaminho.~&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Omundoétantoetuvistetãopouco!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eeuquenemsoudepoupar,fuipouparnoúnicosítioqueaindaestavalivrededisparates.Osespaçosembranco&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Iludi-me.Desculpem-meespaços,vocêsjamaisterãooquepreciso.Deixei-&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;melevarpelaforçaanalógicadaspalavras.Eunãoprecisodeespaços.Euprecisodeespaço. E S P A Ç O&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3039765785423017329-8690060226291192713?l=ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8690060226291192713'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3039765785423017329/posts/default/8690060226291192713'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ha-fogo-na-pradaria.blogspot.com/2008/11/espaopoupoespao.html' title='ESPAÇOPOUPOESPAÇO'/><author><name>MP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13808770453228173848</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry></feed>
